Separação e iniciação na condução de motos

Separação e iniciação na condução de motos

Existem muitos truques e dicas para se melhorar a condução fora de estrada, no entanto, provavelmente nenhum é mais importante do que o conceito de separação corporal e iniciação.
 
Hoje vou explicar o que esses conceitos são, e o impacto que um bom domínio destas técnicas vai ter na tua condução, seja como profissional, amador, ou guerreiro de fim-de-semana.
 

É IMPOSSÍVEL

Em todos os treinos que dou existe pelo menos um momento em que digo ou explico qualquer coisa que até para os pilotos mais experientes é surpreendente.
 
Entre elas está normalmente o facto de que qualquer mota pode e deve ser vista como duas.
 
Esta forma de abordar uma mota prende-se pelo facto de ser totalmente impossível mover a roda de trás, o ponto mais recuado e mais baixo da mota, com o guiador, o ponto mais avançado e elevado do motociclo.
 

Se a mota têm uma clara separação feita pela coluna de direção, temos também de criar uma com o nosso corpo.
Imagem via mxbars.net e trabalhada por BN EnduroCamp


Isto assim o é porque independentemente de quanto o guiador mexer, nunca vamos conseguir manobrar mais do que a roda da frente, com tudo o que está para trás da coluna de direção a manter-se basicamente inalterado.
 
Esta visão simplista de um movimento fácil de replicar por todos vocês, têm implicações drásticas na forma como conduzimos, pois obriga a toda uma diferente abordagem por parte do piloto.
 
Assim, o que queremos evitar, é manobrar a mota pelo guiador, escolhendo perder o controlo da traseira, deixando-a em esquema de comboio, em que a frente vai, e a traseira segue.
 
Esta, ou qualquer uma das suas variantes, é no entanto a abordagem escolhida por muitos pilotos recém chegados ao mundo das duas rodas.
 
Felizmente, essa tendência tende a desaparecer rapidamente, sendo substituída pela ideia de guiar com as peseiras, uma técnica largamente mais correta, mas ainda assim incompleta.

DUAS PARTES, DOIS INPUTS

A utilização das peseiras como método de condução torna-se incompleto pois a larga maioria das explicações desta técnica tende a não introduzir o conceito de separação corporal, um conceito importante de explicar e compreender.

Se aceitamos que é impossível manobrar a roda de trás com o guiador, temos igualmente de aceitar que é impossível controlar a da frente somente com as peseiras.
 
Ao pressionar a peseira do lado direito, por exemplo, a mota irá cair para a direita, e até certo ponto, a frente irá automaticamente alinhar-se, tornando relativamente fácil a execução de curvas sem inputs do guiador.
 
Este é um fenómeno real, mas no entanto enganador, e prova de que possível não é sinónimo de bem executado ou completo.

Uma mota curva, entre outras razões, pela existência do cone de curva, um conceito importante de compreender.
Imagem 
BN EnduroCamp no artigo sobre pneus e tração

Vamos assumir um slalom bastante largo.
 
Como já foi explicado, é sem duvida possível curvar sem recurso ao guiador utilizando somente o balanço da mota dado pelas peseiras.
 
Para todos os efeitos, estamos aqui a utilizar um “comboio invertido”, em que estamos a dar um input á traseira da mota, e a deixar a frente seguir.
 
Ainda assim, se encurtarmos a distância entre os cones do nosso slalom imaginário, rapidamente se torna impossível utilizar a mesma técnica.
 
Isto porque de forma a encadear curvas apertadas, iremos necessitar de introduzir inputs de guiador para aumentar e controlar a velocidade de transição entre curvas.
 
Assim sendo, chegamos agora ao principio básico de separação corporal, em que estamos a utilizar as nossas mãos para manobrar a roda da frente, e os nossos pés para controlar a roda de trás.

O CORPO COMO UM TODO

Tendo agora compreendido de forma geral o porque da necessidade da utilização dos pés e das mãos para controlar a mota, é importante expandir o conceito, pois infelizmente é neste ponto que muitos pilotos se encontram.
 
Digo infelizmente pois apesar da utilização mista do guiador e peseiras para conduzir ser uma técnica correta, e de alguma forma natural, está normalmente a ser aplicada na sua forma mais básica, e portanto, incompleta.
 
Incompleta porque não está a levar em consideração a biomecânica natural do corpo humano, resultando em erros comuns e relativamente fáceis de identificar.
 
Se já alguma vez viram alguém a levar um safanão na roda da frente que resultou na traseira saltar da sua trajetória, então já viram um destes erros a acontecer.

O mau posicionamento do pé direito fê-lo perder estabilidade do tronco, forçando o cotovelo e a cabeça a cair para dentro da mota, criando um elevado risco de queda. Um erro possível de ser controlado utilizando separação corporal.
Imagem motosport.com

Da mesma maneira, se já viram alguém a dar uma “cangocha” com a roda de trás e a perder a frente como consequência, então também já viram outro destes erros a acontecer.
 
Estes problemas acontecem pois apesar do método de controlo da mota estar a existir em separado, a separação do corpo não está a ser tida em conta.
 
Dessa forma, qualquer input feito nas mãos está a ser transmitido para os pés, da mesma maneira que qualquer input dos pés está a ser transmitido para as mãos.
 
Esse é o resultado do nosso corpo estar a funcionar como um fio condutor, exatamente o que queremos evitar.

SEPARAÇÃO CORPORAL

Se para a nossa segurança não podemos deixar o nosso corpo conduzir inputs de parte a parte, temos então de criar algum tipo de separação entre o nosso tronco e as nossas pernas.
 
Essa separação é facilmente atingida pelo correto posicionamento da anca, uma posição que funciona a conduzir em pé, ou sentado.
 
Ao empinar o rabo, ou ao rodar a anca para fora, para ser mais preciso, vamos conseguir atenuar muitos inputs que antes viajavam livremente pelo corpo, o que até certo ponto, permite ao corpo trabalhar como dois.
 
Essa rotação da anca que produz separação corporal oferece benefícios imediatos.

É possível ser estável somente por pôr as costas direitas, mas essa posição só é maximizada pela posição da anca.
Imagem
 BN EnduroCamp

Primeiro, vamos automaticamente ativar os nossos abdominais e dorsais, deixando as nossas costas direitas e numa posição ativa, e não arqueadas e numa posição enrolada e defensiva.
 
Esta nova posição permite atingir estabilidade no nosso tronco sem grande esforço mental.
 
Isso não significa que não se deve forçar ainda mais essa estabilidade em certos momentos, como em curva, significa somente que temos agora uma excelente base.
 
Esta utilização da biomecânica natural segue a mesma teoria da posição das mãos e dos pés, já discutida em artigos passados.
 
Dito isto, é importante ressalvar que é sem duvida possível manter as costas direitas sem a rotação da anca, mas sendo um movimento mentalmente mais desgastante, a tendência para perder essa posição é maior, mesmo em atletas de alto nível.
 
Da mesma forma, manter simplesmente as costas direitas, apesar de promover estabilidade, não promove separação, logo, não atenuando da mesma forma a comunicação entre a parte superior e inferior do corpo.
 
Outro beneficio, é que ao termos agora um tronco mais estável de uma forma mais intuitiva, torna-se mais simples a aplicação das mais variadas técnicas, seja de curvas, saltos, ou até mesmo partidas.

Um péssimo exemplo de falta de separação e iniciação por parte do #52 demonstrando que ser rápido e ser tecnicamente perfeito são conceitos diferentes.
Imagem mcnews.com.au


SEPARA O CORPO, SEPARA AS FALHAS

Ser profissional não significa ser tecnicamente perfeito, significa ter uma base técnica que permite atenuar os erros que acontecem.
 
Separação corporal é portanto uma das técnicas que permite a pilotos de topo cometer erros com os pés, sem que isso automaticamente destabilize o seu tronco, e vice versa.
 
Por outras palavras, um erro na roda da frente ou de trás não influencia tão diretamente a outra roda.
 
Ao assimilarmos esse claro beneficio de segurança e controlo, torna-se fácil compreender o principal problema de conduzir sem separação corporal.
 
Ao termos o tronco a comunicar com as pernas, ligamos a roda da frente á roda de trás.
 
Vamos imaginar uma curva em que por um mau posicionamento do pé fora da peseira, existiu uma falha técnica e o pé foi arrastado para trás.
 
Pilotos com uma boa posição e separação corporal conseguem mais facilmente progredir no terreno sem sentir grandes impactos dessa falha.
 
O pé puxa a perna, que por sua vez roda a anca, que faz cair o ombro e cotovelo, e essa nova atitude corporal faz a roda da frente virar para dentro da curva, o que tende a causar uma queda.
 
Em baixo temos o exemplo do Jett Lawrence, um dos pilotos com melhor estabilidade do tronco e um dos que tende sempre a manter um excelente nível de separação corporal.
 
Neste exemplo, em que o seu pé direito foi cuspido para trás, a sua posição corporal permitiu-lhe salvar o erro técnico, por não permitir o input do pé passar para o tronco, que se manteve inalterado.
 
Ou seja, a sua estabilidade e separação corporal permitiram-lhe que o pé não afetasse a roda da frente, que se manteve inalterada na sua trajetória.

Um erro técnico com o pé a ser minimizado por uma excelente estabilidade e separação do tronco e pernas. Um contraste da imagem mostrada acima neste mesmo artigo.
Imagem via dirtbikemagazine.com


EXERCíCIO PRÁTICO

Ainda que separação corporal seja um recurso incrível, pode e dever ser potenciado com um conceito mais simples de compreender, mas não menos importante, a iniciação.
 
Uma excelente forma de compreender iniciação e separação corporal é com um simples exercício prático.
 
Vamos para este exercício trabalhar com acelerações e travagens em reta, algo extremamente familiar para qualquer piloto.
 
Experimenta então sentares-te na mota, arrancares, e assim que te sentires preparado, acelerares consistentemente durante uns metros, manteres a velocidade durante uns segundos, e de seguida travares de volta à velocidade inicial.
 
O objetivo deste exercício não é ser super rápido a acelerar até velocidades elevadas, ou fazer a mais curta travagem.
 
A ideia é prestar atenção ao que a mota faz, à resposta do nosso corpo, e à nossa posição corporal.

Para este exercício uma aceleração dos 10 aos 30 ou 40 km/h, e uma travagem equivalente é suficiente. O interesse é sentir a diferença na anca, e não otimizar acelerações ou travagens.
Imagem
 BN EnduroCamp

Dito isto, rapidamente sentimos que ao acelerar o nosso corpo tende a ser projetado para trás, e no inverso, ao travar, projetado para a frente.
 
O próximo passo é então rodar a anca para fora, e repetir o exercício mais umas vezes.
 
Ao aplicar separação corporal, é imediata a diferença, seja em pé, ou sentado.
 
É chegada agora a altura de introduzir iniciação, um conceito que pode ser definido como a atitude de preparar o corpo para o que vai acontecer.
 
Por outras palavras, se vais acelerar, inclina ligeiramente o corpo para a frente antes de rodar o punho, contrariando o movimento que o corpo naturalmente vai querer ter de ser puxado para trás.
 
No inverso, antes de aplicares os travões, começa a inclinar o corpo para trás antes dele ser projetado para a frente.
 
Não só vais novamente sentir diferença na tua estabilidade, mas assim que tiveres estes dois conceitos como segunda natureza, vais entender que provavelmente andaste a conduzir de forma errada toda a tua vida.

Nesta imagem, apesar de ambos os pilotos estarem a usar iniciação, é clara a diferença na anca de ambos, com o primeiro a usar separação, e o segundo a não usar, arqueando as costas, o que vai promover o corpo a ser projetado para trás ao arrancar.
Imagem via ValkenswaardPitBits e trabalhada por
 
BN EnduroCamp

 

YOU DO YOU

Se a nível competitivo este tipo de técnicas deve ser utilizado o máximo de tempo possível, para dual-sport, adv, passeios enduristas com os amigos, e até em alguns ambientes competitivos como rally raids, podemos tomar outra atitude.
 
Pela diferença de ritmos e tipos de terreno em que normalmente se anda por lazer, ou pelas longas tiradas de algumas competições, é fácil encontrarmo-nos em terrenos onde estamos em total controlo da mota.
 
Assim, separação pode ser utilizada como um trunfo extra somente para os terrenos mais exigentes.
 
Por ser uma técnica rápida de aplicar quer sentado quer em pé, utiliza-la só quando necessário permite poupar muita energia, algo que é crucial quando se vai estar muitas horas em cima da mota.
 
Um claro exemplo de como pequenas alterações de atitude e técnica têm grandes impactos na condução.
 
Compreendendo isso, torna-se então simples não só aceitar a necessidade de aprender mais, mas também de que uma condução segura, consistente, e controlada está ao alcance de qualquer um.
 
Por isso marca um treino com um treinador profissional, garante que fazes exercícios por ti próprio de vez em quando, e faz questão de que separação corporal e iniciação passem a ser uma realidade na tua condução.
 
Rapidamente vais adquirir uma confiança e controle que nunca pensaste conseguir ter.

 

 

Your riding buddy is trying to kill you!


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