Pára de fazer isto com os pés!

Pára de fazer isto com os pés!

Não interessa se és profissional a correr ao mais alto nível, amador, guerreiro de fim de semana, ou um utilizador causal de cidade, muito provavelmente estás a cometer um erro com o posicionamento dos teus pés.
 
Agora e se eu te disser que esse erro têm implicações muito maiores do que simplesmente te fazer parecer menos bem numa foto?
 
Neste artigo, vamos definir que erro é esse, porque é que ele está a acontecer, como o corrigir, e tudo o que vais ganhar por o eliminar. 

ANDAR DE MOTA NÃO É CONFORTÁVEL 

Faz um exercício, pergunta a qualquer amante de duas rodas porque é que anda de mota.
 
Provavelmente já o fizeste, ou até já to perguntaram a ti, e se esse é o caso, sabes que “pelo conforto incrível que é” está longe de ser a resposta mais dada.
 
Aliás, grande parte das modificações que fazemos ás nossas motas vêm de uma busca por conforto, e sim, em alguns casos modificações de performance podem ser consideradas conforto.
 
Eu pelo menos sinto-me muito mais confortável a saber que a minha suspensão não vai esgotar neste ou naquele buraco, que o meu motor vai puxar sem qualquer problema quando eu lhe pedir, ou que aqueles quilos que tirei à mota não me vão pesar o dia todo.
 
Esta procura incessante por conforto é importante, porque é na sua busca que muitas vezes acabamos numa má posição corporal, e isso implica para começar, uma má posição dos pés.
 
Eu gosto da analogia entre o corpo humano e uma árvore quando estou a explicar posição corporal.

 

Imagem da BN Endurocamp
Imagem da BN Endurocamp


Gosto de me referir à nossa cabeça e braços como os ramos da árvore, no sentido em que podem abanar e isso não desestabiliza a árvore.
 
Entre a nossa cintura e o nosso peito fica a parte superior do tronco de onde os ramos saem.
 
É forte, segura, mas capaz de ter alguma mobilidade.
 
As nossas pernas são a parte de baixo do tronco.
 
Muito forte, muito segura, e só têm a mobilidade mínima suficiente para que a parte superior do tronco possa ser móvel sem partir.
 
E por fim os pés, o ponto fulcral deste artigo e que na minha analogia de sala de aula fica com a tão importante tarefa de ser a raiz da nossa árvore.

EXISTEM RAMIFICAÇÕES GRAVES 

Não interessa o quão conhecedores somos ou não de plantas e árvores, acredito que todos sabemos que cortando ou danificando a raiz dificilmente conseguimos manter uma planta saudável.
 
Connosco é igual, uma má posição dos pés têm graves implicações que para os efeitos desta explicação vou dividir em três pontos base.
 

PROBABILIDADE DE LESÃO

A nossa busca de conforto leva-nos a fazer um movimento com os pés que de alguma forma responde á nossa demanda, mas que nada de positivo trás para a mesa.
 
Esse movimento prende-se pela rotação da biqueira da bota para fora da mota, deixando-nos o pé assente na peseira entre o calcanhar e a zona central do pé, numa posição muito semelhante á da foto seguinte.
 
Uma posição que muitos chamam de “pés de pato” e que se encontra em utilizadores de qualquer estrada ou pista do mundo, sem experiência ou com anos de competição ao mais alto nível.

 

A posição do pé esquerdo a sair para fora da mota é um erro técnico perigoso mas comum. Imagem via racerxonline.com
A posição do pé esquerdo a sair para fora da mota é um erro técnico perigoso mas comum. Imagem via racerxonline.com

 

Esta posição torna-se um risco constante de lesão primeiramente por criar um ponto de contacto extra com o ambiente que nos rodeia.
 
Assim que o pé fica virado para fora, qualquer pedra, ramo, ou até mesmo o chão em contacto com a bota não irão rodar à volta da biqueira.
 
Pelo contrário, qualquer toque irá forçar a mesma a saltar da peseira pondo o corpo numa posição de segurança extremamente precária.

 

Imagem de BN EnduroCamp
Imagem de BN EnduroCamp


Por outro lado, se usarmos a ponta do pé como ponto de contacto com a peseira, o mantivermos o tão encostado ao quadro quanto possível, e rodarmos ligeiramente a biqueira para dentro, tudo muda.
 
Temos mais trabalho para chegar aos controlos, o que significa que os nossos movimentos serão sempre premeditados evitando toques inadvertidos no seletor de mudanças ou no travão.
 
Uma situação que acontece a muitos e que pela surpresa da alteração de mudança ou travagem inadvertida é por si só razão para uma possível queda e subsequente lesão.
 
Da mesma maneira, conseguimos proteger o nosso pé de ser arrancado da peseira num qualquer contacto com o ambiente que nos rodeia, um bónus de segurança muito a ter em conta.
 

CONTROLO DA MOTA 

Ao puxar o pé para trás na peseira e ao mante-lo encostado á mota estamos igualmente a alterar a forma como controlamos o veiculo, por nos permitirmos posicionar melhor o nosso corpo.

 

Uma excelente posição corporal com a o pé mais puxado atrás na peseira, junto ao inicio dos dedos, a biqueira encostada ao quadro, e o joelho encostado a mota. Foto via racerxonline.com
Uma excelente posição corporal com o pé mais puxado atrás na peseira, junto ao inicio dos dedos, a biqueira encostada ao quadro, e o joelho encostado a mota. Foto via racerxonline.com


 
Já falamos no passado sobre como pequenos ajustes fazem grandes alterações em termos de posição corporal, e sobre como saber como o nosso corpo se mexe é um recurso imenso.
 
Aqui, e em relação à posição dos pés, acontece exatamente o mesmo.
 
A rotação do pé aliada a um agachamento, força ou não os joelhos automaticamente para dentro, ou para fora.
 
Experimenta fazer o seguinte exercício; põem-te de pé, com os pés sensivelmente á distancia dos ombros, roda os pés para fora, e faz um ligeiro agachamento.
 
Agora, tenta fechar os joelhos enquanto estás em posição agachada.
 
Tenta agora repetir o mesmo exercício com os pés paralelos, seguido do mesmo exercício com os pés virados ligeiramente para dentro.
 
Não quero que alteres nada mais a não ser a posição dos pés entre cada tentativa.

 

Imagem de BN EnduroCamp
Imagem de BN EnduroCamp


Como deves ter reparado, ao rodar ligeiramente os pés para dentro, assim que inicias o agachamento os teus joelhos fecham automaticamente.
 
Este automatismo garante um contacto constante e quase sem esforço entre os joelhos e a mota, posição que promove o controlo da mesma.
 
Tal como falamos no passado em rodar a mão de forma a garantir uma posição automática do cotovelo, ao rodar o pé temos uma posição automática do joelho, algo que promove largamente segurança e controlo da mota.
 
No entanto, esse controlo ganho em reta perde-se se aplicamos uma máxima popular que diz que para curvar devemos tirar o pé de fora, uma manobra que se pode tornar rapidamente perigosa.

 

O pé de dentro a ficar preso leva o corpo para uma péssima e perigosa posição corporal. Grande risco de queda e de lesão no joelho. Autor da foto desconhecido
O pé de dentro a ficar preso leva o corpo para uma péssima e perigosa posição corporal. Grande risco de queda e de lesão no joelho. Autor da foto desconhecido


 
Como deves ter reparado na primeira tentativa de agachamento com os pés virados para fora, foi basicamente impossível encostar os joelhos, e para quem o conseguio fazer, o esforço físico necessário será impossível de manter de uma forma constante.
 
Com isso em mente, se tivermos ambos os pés virados para fora, e um deles fora da peseira, torna-se virtualmente impossível manter algum tipo de contacto dos joelhos com a mota sem um imenso e impossível de manter esforço físico.

 

Com ambos os pés a apontar para fora e o de dentro fora da mota, o esforço físico para manter pressão dos joelhos na mota é incomportável a longo prazo. Imagem via dirtbikeplanet.com

Com ambos os pés a apontar para fora e o de dentro fora da mota, o esforço físico para manter pressão dos joelhos na mota é incomportável a longo prazo. Imagem via dirtbikeplanet.com


Isso resulta numa total e completa desconexão das pernas com o veiculo, o que retira por completo a capacidade de o controlar, ficando nós presos à mota somente pela costura das calças e alguma fé.
 
Não me levem a mal, tirar o pé para curvar é um recurso que pode e deve ser usado, mas da mesma maneira que não reenchemos o deposito a cada 2 metros só porque sim, também esta técnica só deve ser usada quando é necessário.
 
A não ser que estejamos a falar de flat track, essa necessidade fica reduzida a somente duas ocasiões; um dab ou toque do pé no chão, e quando o pé vai bater porque a peseira vai tocar no solo.
 
Se num dab o pé deve voltar o mais rapidamente possível para a peseira para retomarmos o controlo da mota, numa curva em que o pé tenha de sair por risco de contacto com o solo, o mesmo não deve ser simplesmente retirado da peseira de qualquer forma.
 
O pé ao sair deve manter-se o mais alto possível, rodando a biqueira para dentro em direção ao guarda lamas frontal, tocando-lhe se houver elasticidade para isso.
 
Afinal, o pé saiu para evitar o contacto com o solo, pelo que deve estar o mais longe possível dele.
 
Da mesma forma, ao apontar ao guarda lamas conseguimos assentar a perna em cima do plástico lateral acabando por conseguir um apoio extra, o que facilita o movimento e diminui o desgaste físico da manobra.
 
Ao elevar e rodar a biqueira conseguirmos manter o automatismo de pressão dos joelhos contra a mota, garantindo que até nesta posição fisicamente difícil mantemos o nosso contacto e controlo do veiculo.

 

Pé de dentro alto, à altura do guarda lamas, e ligeiramente virado para dentro para promover contacto do joelho com a mota. Pé de fora encostado e rodado para a mota para promover contacto do joelho com a mota. Marvin Muskin via Redbull.com

Pé de dentro alto, à altura do guarda lamas, e ligeiramente virado para dentro para promover contacto do joelho com a mota. Pé de fora encostado e rodado para a mota para promover contacto do joelho com a mota. Marvin Muskin via Redbull.com

Assim sendo, ao evitar tirar o pé só porque sim, forçarmo-nos a criar o bom hábito de manter os pés nas peseiras o máximo de tempo possível.
 
Esse bom hábito vai-nos permitir conseguir aumentar o nosso controlo da mota e eliminar um movimento por norma desnecessário e que ao ser sobreutilizado está a ocupar espaço de processamento cerebral.
 
Essas são as principais razões pelas quais mais e mais pilotos de topo como Jett Lawrence, Chase Sexton, Ken Roczen entre outros, estão a escolher trabalhar a sua técnica de forma a manter tanto quanto possível os pés nas peseiras durante toda a prova.
 
Isso incluiu não retirar os pés das peseiras até em situações como curvas com regos ou curvas em pivot.
 
É sempre possível manter os pés na peseira no calor da competição ou na descontração natural de uma volta domingueira com amigos?

Não, claro que não, mas é ai que entra a nossa mentalidade para garantir o sucesso e a nossa tentativa de tentar usar sempre a nossa melhor técnica.

 

Curva feita em pé de forma a aumentar o controlo no rego sem necessidade de tirar os pés da peseira. Ken Roczen via swapmotolive.com
Curva feita em pé de forma a aumentar o controlo no rego sem necessidade de tirar os pés da peseira. Ken Roczen via swapmotolive.com

 

COMPETITIVIDADE

Ninguém questiona que suspensões com 310mm de curso são qualquer coisa do outro mundo, no entanto, quando estamos a falar de competição, um milímetro faz a diferença.
 
Ao utilizamos a frente do nosso pé na peseira para controlar melhor a mota e aumentar a nossa segurança, estamos igualmente a ganhar tempo, e suspensão extra.
 
Quanto ao tempo, esse refere-se aos milésimos de segundo necessários para passar da posição de sentado para a posição de pé.
 
Experimenta pôr-te em pé e tentar saltar ou correr utilizando os teus calcanhares.
 
O corpo vai cair para trás ou perder o balanço, e o resultado final vai ser pouco eficaz.
 
Agora tenta saltar ou correr utilizando a zona mais frontal do pé.
 
Não só o resultado vai ser perfeito, mas todo o teu corpo vai ficar alinhado numa posição de ataque correta para o exercício que estás a executar.
 
Isto acontece porque utilizando a frente do pé estamos a tirar o máximo partido da nossa biomecânica e a utilizar o corpo como uma mola.
 
Isso significa que ao utilizar o mesmo principio na peseira vamos conseguir ser mais fluidos, mais controlados, e mais rápidos a mudar de posição, tal como a meter peso em cada peseira individualmente sempre que quisermos.
 
Estamos a ganhar milésimos de segundo neste movimento?
 
Sim, mas um milésimo por cada vez que transitamos de sentado para em pé e vice versa ao longo de uma prova, são muitos segundos acumulados à altura de passar a bandeira de xadrez.
 
Um ponto a ter em mente quando o objetivo é ganhar.

 

Jett Lawrence com uma excelente posição corporal e o pé claramente chegado para trás na peseira de forma a promover a mola natural do corpo. Imagem via mxvice.com
Jett Lawrence com uma excelente posição corporal e o pé claramente chegado para trás na peseira de forma a promover a mola natural do corpo. Imagem via mxvice.com

 

Esta utilização correta da biomecânica aliada ao efeito de mola que ganhamos torna o conceito de suspensão extra relativamente simples de compreender.
 
Se no nosso calcanhar não conseguimos saltar por não ser possível fazer mola, isso significa que qualquer impacto da mota transferido pela peseira vai passar diretamente para o nosso corpo.
 
Isso vai criar um desgaste prematuro e constante do esqueleto e musculatura, tal como forçar o corpo a querer saltar da peseira em impactos maiores.
 
Ao apoiarmo-nos na biqueira, qualquer impacto transferido pela peseira vai primeiro ter de passar pela mola criada pela posição do pé, permitindo ao calcanhar subir e descer criando efetivamente um ponto de suspensão no corpo.
 
Se o teu pé apoiado pela biqueira na peseira te permitir 50mm de amplitude de movimento para cima e para baixo, por exemplo, então agora estás a trabalhar com 50mm extra de curso totalmente gratuitos.
 
Proponho que vejas o vídeo seguinte duas vezes.
 
Na primeira, quero que olhes para os pés do piloto e que te foques no quanto o calcanhar dele sobe e desce em relação à linha da peseira.
 
Vê também a posição da ponta dos pés ligeiramente virada para dentro da mota promovendo pressão automática dos joelhos, e como apesar dessa pressão, a mota mantém liberdade suficiente para trabalhar debaixo dele.
 
Na segunda visualização olha para a cabeça do piloto, e como ela não mexe mantendo-se nivelada durante todo o set de whoops.
 
Isto só é possível por todos os impactos estarem a ser absorvidos primeiro que tudo pela mola criada pela posição dos pés.

HÁ MAIS QUE SE LHE DIGA

Tempo extra, suspensão extra, mais segurança e mais controlo são benefícios que qualquer utilizador deseja, mas não são os únicos benefícios de uma boa posição de pés.

Como falamos no inicio deste artigo, o corpo em cima da mota pode ser comparado a uma árvore, por isso, a utilização correta dos pés vai além de tudo o que foi discutido ser também o primeiro passo para uma boa posição corporal completa.
 
É totalmente impossível um piloto conseguir fazer bem um set de whoops como o do vídeo somente por ter uma boa posição de pés, da mesma maneira que é igualmente impossível faze-lo tão bem com eles mal posicionados.
 
O corpo funciona como um todo, por isso mesmo que estejamos aqui somente a falar de uma parte especifica, é importante manter em mente que tudo no corpo funciona como um e não como partes independentes.
 
Isso obriga-nos igualmente a estar cientes que aprender, e ainda pior, reaprender técnica é difícil, é moroso, e é extremamente trabalhoso não só a nível corporal mas igualmente a nível cerebral.
 


Isso é a razão pela qual ao aprender técnicas como as que estamos aqui a discutir não ser incomum a primeira sensação ser de total desconforto e de que estamos mal posicionados, e isso é um trabalho mental.
 
Um trabalho mental que vai do querer aprender, ao processo de transição, até atingirmos a cimentação do conhecimento adquirido.

Essa sensação tende a tornar-se ainda mais evidente ao adaptar este tipo de técnicas a motas maiores como ADV's, que pela forma como são construídas impõem limitações na aplicação técnica ainda que mantendo os mesmos princípios.

Isso significa que vai demorar umas horas, um dia, uma semana, um mês, ou um ano para garantir uma aplicação confortável da técnica?

Não sei, e estaria a mentir ao tentar dar uma resposta.
 
Varia de pessoa para pessoa, se estás a treinar sozinho ou com um instrutor profissional, o tempo e dedicação que dás aos teus treinos, e mais mil variaveis que é impossível quantificar.
 
O que posso afirmar é que aprender técnicas como estas vale o esforço físico, mental e financeiro, seja a nível lúdico, amador ou profissional.

É igualmente importante manter em mente que aprender estas técnicas não significa que as tenhas de aplicar sempre que te sentas na mota.

Dias são dias, e cada um têm a sua realidade, mas saber como tirar o máximo partido da mota, e o porque de cada técnica dá-te a possibilidade de fazeres as tuas próprias escolhas.

Se já investiste na mota porque queres andar, investe agora em ti de forma a tirares mais partido do teu investimento inicial e escolheres o que melhor se adapta a ti e ás tuas necessidades.
 
Pequenas mudanças têm grandes impactos, e podemos dizer que tudo começa na raiz.

 


Your riding buddy is trying to kill you!


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