Continuidade - Follow through

Continuidade - Follow through

Um dos “segredos” mais mal guardados do mundo do desporto é o conceito de follow-through, ou, em português, continuidade. Ainda assim, este conceito é muito pouco falado no mundo das motas, e isso faz dele um candidato ideal para aquele que poderá ser um dos artigos mais tecnicamente importantes que alguma vez escrevi.

TÉCNICA É ESTRATÉGIA EM MOVIMENTO

Temos de começar por aceitar o elefante na sala e, em bom português, chamar os bois pelos nomes. Técnica não é só posição corporal, nem um conjunto de formas “certas” de fazer este ou aquele movimento.

Este é um erro comum, e até certo ponto compreensível, pois a larga maioria das pessoas nunca teve formação técnica profissional. Mas isso não o torna menos real.

Formação técnica inclui posição, inclui treino mental, inclui adaptação física e, acima de tudo, inclui estratégia. E estratégia, neste contexto, não é algo minimamente abstracto. Estratégia é movimento organizado no tempo. É o planeamento de uma sequência contínua, com intenção, progressão e resolução.

Em vários desportos, como basquetebol, golfe, futebol ou bilhar, basicamente qualquer desporto que se queira nomear, o follow-through não só é debatido como trabalhado ad nauseam. E o mais curioso é que este conceito vive para lá do desporto em si. Mesmo quem nunca praticou essas modalidades entende intuitivamente a ideia, porque ela é transversal à forma como o corpo humano produz e liberta movimento.

Mas, para quem nunca ouviu o termo, a explicação é simples. Todo e qualquer movimento tem três partes: um início, um desenvolvimento e um fim.

O follow-through diz respeito ao fim do movimento. Imaginem um remate no futebol. Se o pé parar no exacto momento em que toca na bola, quebraram a continuidade do gesto. Isso significa que o corpo não consegue libertar a energia do movimento de forma orgânica, o que obriga a que o movimento tenha de ser travado.

E sempre que travamos um movimento, não o estamos a “terminar”. Estamos efectivamente a introduzir um segundo movimento: um movimento de bloqueio, que aparece a meio do outro movimento que já estávamos a fazer, sobrepondo-o.

O movimento original fica assim danificado ou, no mínimo, instável. Tal como um carro a andar com o travão de mão puxado: move-se, mas não o faz de forma eficaz. Assim, o resultado final fica, no mínimo, inevitavelmente abaixo daquilo que seria possível.

Nas motas, esta realidade não é diferente. Afinal, estamos a falar de biomecânica pura. A diferença é que, neste contexto, a continuidade é pouco divulgada e ainda menos explicada.

CONTINUIDADE EM DUAS RODAS

Para entendermos continuidade em duas rodas, e neste caso na terra, é necessário aceitar uma realidade simples e inegociável: uma mota reagir da forma que queremos depois de lhe termos dado um input não significa que o movimento corporal que iniciámos tenha terminado.

Isso dita que a reacção da mota nunca pode ser o critério que define o fim de um movimento. O critério é sempre a resolução do gesto que o corpo do piloto iniciou ou, no limite, modificou.

Deixem-me explicar. Podemos discutir movimentos de forma isolada - subir, descer, travar, curvar - mas todos eles continuam a ter de obedecer à mesma lógica: têm de ter um início, um desenvolvimento e um fim. Isso obriga a que a reacção da mota, seja ela planeada ou não, nunca dite o fim imediato do movimento corporal do piloto. Simplesmente não pode. Se ditasse, estaríamos a deixar a mota decidir quando o nosso corpo deve parar de se mexer, e isso é o caminho directo para instabilidade e imprevisibilidade.

Isto significa que, por exemplo, acabar uma curva e entrar numa recta não dita o fim directo do movimento de curva. Marca apenas um ponto de transição de um movimento para o outro, mas não o fim abrupto do movimento de curva. Imaginem dançar. Encadeamos um passo no outro, mas se cortamos um passo a meio para “salvar” o seguinte, existe tendência para se perder fluidez, suavidade e previsibilidade.

Da mesma forma, a mota mexer-se debaixo de nós não dita, por si só, uma necessidade automática de parar, cortar ou modificar o gesto que estamos a executar. Isto porque é normal que a mota se mexa. O que não é normal - ou não deve ser - é o piloto interpretar cada movimento da mota como um sinal de “agora acabou” ou “agora muda tudo”.

Esta ideia pode parecer insistente, mas é propositadamente insistente, porque é aqui que muitos pilotos se perdem. Não por falta de coragem ou de vontade, mas por confundirem reacção da mota, ou pontos de transição, com o fim do movimento que se está a executar.

Motas de terra mexem-se. Procuram e perdem tracção. Comprimem e descomprimem suspensões. Alteram cargas, regimes e geometrias. Quadros flexionam, pesos deslocam-se, e tudo isto acontece em milésimos de segundo quando uma mota está em movimento. Nada disto, por si só, invalida ou deve alterar o movimento técnico que estamos a executar.

Agora, saber quanto a mota se deve mexer em cada contexto aprende-se em treinos, aprende-se com repetição controlada e consciente. E é dentro, e mesmo fora, dessa margem de normalidade agora treinada e aprendida que a continuidade do movimento corporal continua a ser a melhor hipótese de preservar estrutura, equilíbrio e opções. Isto porque, sem continuidade e balizamento da normalidade, é natural um piloto começar a reagir a fantasmas.

Isso leva-nos automaticamente a um ponto crítico: muitos comportamentos que os pilotos classificam como “estranhos” não o são. São antes, muitas vezes, apenas uma leitura incorrecta do comportamento normal da mota naquele contexto específico. Noutras situações, esses comportamentos podem ser amplificados, ou mesmo provocados, por uma quebra de continuidade do movimento corporal. O piloto cria o problema ao tentar “salvar” a mota de algo que ela estava a resolver sozinha, tal como foi desenhada para fazer.

Por exemplo, uma derrapagem a sair de uma curva pode ser intencional, aceitável ou completamente inesperada.

Quando é inesperada, a interrupção do follow-through tende a ser uma das causas mais comuns. Porque quebrar um movimento não só invalida o movimento que iniciámos, como começa efectivamente um novo movimento, um movimento de bloqueio, que pode, e tende, a ser totalmente desnecessário e contraproducente se estivermos dentro do que é efectivamente válido em termos de feedback da mota. Em vez de ajudar, o bloqueio rouba à mota a chance de se auto-estabilizar com o input contínuo que já estávamos a dar.

Outro exemplo claro são travagens de emergência. A maioria das pessoas a treinar ou a implementar este movimento faz tudo bem até ao metro final, em que, em vez de manter os travões, deixar a mota parar e equilibrar o corpo uns centésimos de segundo antes de pôr o pé no chão com o veículo já totalmente imóvel, faz algo diferente.

Perto do fim, existe uma tendência para tentar pôr o pé no chão, libertar ligeiramente o travão para mudar a posição corporal, ou mesmo desistir da “emergência” e deixar a mota rolar mais uns metros. Todas estas hipóteses, que já vi vezes e vezes sem conta em treinos, sinalizam um claro corte de continuidade, que resulta invariavelmente numa atitude da mota que não é a esperada, e que muitas vezes acaba num tombo.

Assim, como pilotos, somos obrigados a manter sempre foco, controlo e a implementar um sistema básico de execução de qualquer movimento. Um sistema onde a única regra é simples: movimentos não se interrompem e, mesmo que se alterem, têm de terminar numa resolução clara.

TRIAGEM

Todo e qualquer profissional de emergência se sente assoberbado quando chega a uma situação crítica. O treino ajuda e muito, mas a pressão existe sempre, porque a natureza humana não desaparece. Não saber por onde começar, o que fazer ou como reagir faz parte do problema que se tem de resolver.

A ferramenta que permite operar nesse caos chama-se triagem.

Na mota, e no que diz respeito à continuidade de movimento, a triagem não existe para suspender a regra. Existe para decidir quando é necessário abandonar um movimento e entrar noutro. E esse novo movimento, tal como qualquer outro, tem de ser levado até ao fim.

A mota está-se a mexer dentro do que é expectável? Continua o movimento que estás a fazer até à sua resolução.

A mota mexeu mais do que esperavas, mas ainda dentro da janela da normalidade? Avalia rapidamente, aplica a correcção mínima necessária, se necessário, e regressa imediatamente ao movimento que estavas a fazer para o poderes resolver.

A mota perdeu completamente o fio à meada? Abandona o movimento original e não lutes contra o desvio. Relaxa, respira, e encadeia um novo movimento viável e leva-o até ao fim.

Em nenhum destes casos a regra mudou. O follow-through continuou, e continua, a ser a regra. O que mudou foi o gesto técnico que está a ser executado e que completou o movimento.

É aqui que o treino se torna determinante, porque sob stress não se inventam soluções. Reconhecem-se padrões e seleccionam-se opções previamente treinadas. Se a opção não existe no repertório, muito raramente vai aparecer por magia.

Um excelente paralelo é o boxe. Um pugilista não decide conscientemente que golpe lançar depois de levar um murro. O cérebro dele faz a triagem em segundo plano, reconhece a situação e executa uma resposta dentro do conjunto de opções previamente treinadas. No momento, o atleta limita-se a manter foco, presença e controlo. O treino prévio trata do resto; há quem chame a este fenómeno estar em flow.

Na mota, o princípio é exactamente o mesmo. As escolhas sob stress são limitadas, e esse limite é definido pelo treino. Aqueles “saves” que surgem com naturalidade e que por vezes vemos não surgem por acaso. Surgem da capacidade de reconhecer quando é necessário mudar de movimento e de levar essa nova escolha até ao fim.

O Marc Márquez é um exemplo visual fácil de reconhecer neste domínio, não porque invente soluções sob stress, mas porque encadeia movimentos treinados até recuperar controlo ou esgotar opções. Existe instinto e talento? Claro. Mas até esses pontos só aparecem ao seu melhor nível quando existem sobre bases sólidas.

Tudo isto significa que a continuidade de movimentos fora de estrada não é ideologia, nem um conceito vago reservado a atletas de topo. É a cola que garante que o que fazemos é estruturado, previsível, seguro e, acima de tudo, consistentemente repetível.

E o melhor de tudo é simples: não é obra do acaso. É o resultado directo de treino direccionado. Por isso a pergunta que fica é simples: vais continuar a conduzir em esquema de roleta russa, ou vais investir em ti?


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