Pára de andar em pé fora de estrada

Pára de andar em pé fora de estrada

Apesar de acreditar que nada no mundo é preto e branco, sou obrigado a aceitar que existem verdades absolutas.
 
A nossa mortalidade é um desses exemplos, no entanto, um que mais diretamente se relaciona como nosso mundo das duas rodas, é o mito de que fora-de-estrada deve ser sempre feito em pé, principalmente em motas de adventure.
 
Hoje vou-vos explicar porque é que isso é errado, e o que podem ganhar em adoptar melhores práticas de condução fora-de-estrada que ofereçam distintas posições de condução na terra.

NEM OS MAIS RÁPIDOS DO MUNDO

A imagem de pilotos de punho trancado e em posições de ataque agressivas são estandarte de um limite e controlo de condução que muitos almejam.
 
Por ser uma imagem tão marcante o seu uso é abrangente, passando facilmente a ideia de que se queremos andar fora-de-estrada devemos faze-lo em pé.



Exemplo de uma das muitas imagens publicitárias a mostrar pilotos em pé fora-de-estrada.
Imagem wallpapercave.com

 
Ao longo dos anos, esta imagem ficou ainda mais vincada com alguns programas de treino, principalmente de adventure, a focarem repetidamente este conceito, ou a não o aprofundam, perpetuando a predisposição desta ideia nos recém chegados ao nosso desporto.
 
Eu não quero no entanto dizer que não se deve andar em pé, antes pelo contrário, andar em pé é uma das mais importantes ferramentas à nossa disposição no fora de estrada.
 
No entanto, sou obrigado a referir que isso não faz dela a única posição possível, nem tão pouco obrigatoriamente a melhor para todas as situações.

Prova disso é que em motocross e supercross anda-se sentado numa considerável parte do tempo.



Mesmos nas disciplinas mais exigentes do fora-de-estrada, andar sentado não é sinónimo de ser lento.
Imagem ultimatemotorcycling.com


Essa realidade mantém-se em disciplinas como o enduro e rally raid, provando que andar sentado é um recurso até nos mais altos níveis competitivos.

Assim, se nem os mais rápidos do mundo só fazem fora-de-estrada em pé, porque é que muitos insistem em tirar imediatamente o rabo do banco assim que o alcatrão acaba?

TUDO DEPENDE

Aceitando que podemos e devemos utilizar várias posições de condução em cima da mota, temos não só de definir quais são, mas também quando usar cada uma.
 
Infelizmente para aqueles que gostam de dados claros, quando mudar de posição é extremamente difícil de definir.
 
Andar de mota é um desporto individual feito em grupo, o que significa que independentemente de quantos amigos temos à nossa volta, nós somos os primeiros e últimos responsáveis por tudo o que acontece com a nossa mota.
 
Isso é a principal razão pela qual boas escolas e bons instrutores de fora de estrada nunca obrigam ninguém a fazer exercício nenhum, e trabalham num limite muito especial entre motivar e forçar alguém.
 
Assim, e munidos do peso da nossa responsabilidade, torna-se fácil aceitar que entre nós e os nossos amigos existem diferentes níveis de conhecimento técnico, de experiência, de conforto, de segurança, e mesmo de gestão de risco.


 
Até na mesma mota e no mesmo terreno diferentes pilotos escolhem diferentes posições.
Imagem rideadv.com


Essa singularidade que faz de nós únicos é a razão pela qual se torna quase impossível definir as situações especifica em que devemos mudar de posição.
 
Com isso em mente, rapidamente se compreende porque somos obrigados a esquecer o que os outros fazem e a olhar para nós próprios, algo que nos vai ajudar a criar um método alternativo de decisão.
 
O que eu ensino nos treinos da BN EnduroCamp centra-se então num conceito simples: mantém-te sempre na posição de menor desgaste físico, até seres obrigado a aumentar o teu envelope de segurança.

ENVELOPE DE SEGURANÇA

Por outras palavras, se estiveres em pé num terreno em que com extrema facilidade podias ir sentado, estás então a gastar demasiada energia para o envelope de segurança que necessitas.
 
Apesar de não haver realmente nada de errado em andar sempre com o máximo de segurança possível, isso é altamente desgastante.
 
Considerando que todos nós temos um limite físico muito claro, se preferirmos andar sempre em segurança máxima, vamos conseguir fazer menos kms ou horas em cima da mota do que conseguiríamos se alternássemos posições.
 
Eu sei que esta explicação parece trivial, no entanto, a tentativa quase obrigatória de andar sempre em pé fora de estrada, é a razão pela qual muitos pilotos lúdicos ou iniciantes ficam tão cansados, tão depressa.
 
Além disso significar que para a maioria desses pilotos o dia se torna mais curto, para os que insistem, a certo ponto vão ser obrigados a conduzir acima dos seus limites físicos.



É impossível manter posições de ataque agressivas em pé durante muitas horas, ou múltiplos dias seguidos sem rapidamente atingir limites físicos, até para atletas profissionais em excelente forma física.
Imagem wallpapercave.com


Ironicamente, chegada a essa altura, a má escolha de posição para o tipo de terreno em que estavam, desgastou-os tanto que deste ponto para a frente vão ficar efetivamente inseguros.
 
Isto assim é porque um corpo e uma mente desgastadas não produzem os mesmos resultados que um corpo e uma mente frescas, por isso, os perigos de conduzir acima dos nossos limites físicos são claros.
 
Um facto tão real que suportado por anos de dados, é o ponto fulcral de inúmeras campanhas de segurança rodoviária.
 
Assim sendo, saber então gerir a nossa energia é o que nos vai permitir controlar eficazmente o nosso envelope de segurança pessoal, e decidir qual a melhor posição corporal para o obter.

AS DUAS POSIÇÕES SENTADAS

Agora que compreendemos a necessidade de gerir energia, temos de criar uma definição geral do que cada posição permite versus o seu respetivo gasto energético relativo.
 
No curriculum que ensino, utilizo então 4 posições, divididas da menos defensiva para a mais defensiva, entre; sentado, sentado em posição de ataque, em pé, e em pé em posição de ataque.

 


Em termos relativos, podemos comparar o que cada posição oferece em termos de segurança relativamente ao gasto energético a que obriga.
Imagem BN EnduroCamp


A posição sentada é simples, é a que todos entendemos de uma forma muito intuitiva, e a que nos permite relaxar mais.
 
Relaxar no entanto não significa esquecer a posição base dos pés, significa apenas permitirmo-nos andar com a anca bloqueada, e se for caso disso, até com cotovelos e ombros caídos.
 
Esta posição é perfeitamente aceitável em longas tiradas de terra em que o terreno é regular, previsível, e em que temos visibilidade suficiente para manter velocidades mais elevadas sem grandes surpresas.
 
Se quiserem uma ajuda visual, eu definiria o tipo de terreno onde esta posição é perfeitamente aceitável como Classe 1 e Classe 2, com alguns pilotos e motas a conseguirem faze-lo em Classe 3.
 
Dito isto, por estarmos relaxados mas a usar uma boa posição dos pés, se o terreno mudar, ou se a nossa confiança ficar abalada por alguma razão, é fácil rapidamente conseguirmos desbloquear a anca e posicionar o tronco, ficando agora numa posição de ataque sentada.

 


Um bom posicionamento de pés torna a transição entre posições sentadas extremamente rápida, enquanto mantém um ótimo controlo básico em ambos os casos.
Imagem BN EnduroCamp


Esta posição, por criar separação, aumenta em muito a nossa capacidade de controlo da mota, o que aumenta em muito a nossa segurança.
 
Esse aumento de segurança é no entanto obtido com um aumento de gasto energético, pelo que terminando a zona complicada ou reganhando a confiança perdida, é sempre aconselhável voltar à posição inicial, se isso for possível.

AS DUAS POSIÇÕES EM PÉ

Para compreendermos a posição corporal seguinte temos de manter em mente que o nosso objetivo aqui é segurança, e não velocidade.
 
Dito isto, não devem sobrar duvidas que sentado em posição de ataque, o controlo e agressividade é superior a quando estamos simplesmente em pé, pelo que neste caso, seremos mais rápidos sentados.
 
Ainda assim, em pé e relaxado, o nosso campo de visão melhora, tal como a capacidade de deixar a mota trabalhar debaixo de nós, e a velocidade de transição para uma posição de ataque em pé.

Todos estes benefícios de segurança são assim atingidos enquanto mantemos um gasto energético menor do que o utilizado numa posição de ataque sentado.
 
Dessa forma, perdemos efetivamente velocidade, mas ganhamos segurança, o que me leva a recomendar que a nível competitivo onde velocidade é crucial, se alterne somente entre as duas posições de ataque.

No entanto, a nível lúdico ou até mesmo em rally raids, onde a capacidade de resistência é chave, utilizar todas as posições possíveis é imprescindível, principalmente quando a nossa forma física não for a ideal.



Apesar de ser mais desgastante estar em pé do que sentado e relaxado, é possível fazer muitos kms nesta posição, ou utiliza-la como ferramenta para melhorar o campo de visão ou simplesmente relaxar as pernas.
Imagem wallpapercave.com


Com isto em mente, ainda que sejamos mais lentos por nos termos posto em pé, encontramo-nos agora numa posição onde temos um envelope de segurança semelhante ao anterior, mas com menos desgaste físico.

Assim, seja somente para descansar as pernas, ou para comer km’s com um campo de visão mais abrangente, conseguimos aplicar esta posição nos mais variados tipos de terreno.
 
No expoente máximo do nosso arsenal de posições corporais encontra-se por fim a tão almejável posição de ataque em pé.
 
Pés perfeitamente posicionados, joelhos a fechar, anca desbloqueada, cotovelos altos, e de olhos no horizonte estamos agora no limite do que a nossa técnica de condução nos vai permitir.
 
Aqui é onde podemos ser o mais rápidos com a maior segurança relativa possível.



Um excelente exemplo entre uma posição pé mais relaxada e uma mais em posição de ataque quando a utilizar a mesma mota no mesmo tipo de terreno.
Imagem newmotor.com.cn


Esta posição é no entanto altamente desgastante, pelo que será basicamente impossível de manter durante todo um dia de treino, passeio, ou prova.
 
Assim, é importante decidir quando a utilizar, e por norma, ficar bem nas fotos e vídeos não é primordial para a nossa segurança e resistência.

A ELOSIVA 5ª POSIÇÃO

Ainda que eu tenha dito que em formação falo somente de quatro posições, isso não é totalmente verdade, porque em formações mais avançadas falo da existência da elusiva quinta posição de condução.
 
Digo elusiva porque para muitos ela não é clara, e como tal, não é treinada ou conscientemente utilizada.
 
Essa posição é portanto o falso sentado, uma posição que tende a ser momentânea, e que nada mais é do que na posição sentada, levantarmos o rabo do banco sem nos pormos em pé, aguentando o corpo nessa posição.
 
Pela força e estabilidade necessária nas pernas e tronco, esta posição resulta melhor quando estamos sentados numa posição de ataque.

Ao utiliza-la quando estamos simplesmente sentados, tendemos a exercer demasiada força no guiador para suportar o peso do corpo, o que tende a resultar em instabilidade da mota.
 
Ainda assim, é um recurso que pode perfeitamente ser utilizado em qualquer uma das duas posições sentadas, porque nos permite impedir que a mota nos projete o corpo em pequenos saltos ou buracos, pela criação de uma almofada de ar entre o nosso rabo e o banco.



A 5ª posição é momentânea, e extremamente desgastante, mas ainda assim, incrivelmente eficaz.
Imagem BN EnduroCamp


Pilotos mais experientes podem também utilizar uma ligeira variação desta técnica para fazer pre-loads na suspensão, seja isso para iniciar um cavalinho, preparar um salto, ou simplesmente utilizar o rebound da mota para passar uma dificuldade.
 
Ainda que seja uma posição de alto desgaste físico, por ser utilizada momentaneamente e trazer tantos benefícios, esta posição é uma excelente escolha para se conseguir manter um ritmo elevado sem o desgaste de se ir numa posição de ataque em pé.
 
Com tudo isto em mente é então importante manter a noção de que fora de estrada não é unidimensional, treinar até se ser proficiente em todas as posições de condução, e obviamente, ajudar o próximo ao partilhar esta informação com aquele amigo que religiosamente se levanta assim que toca na terra.

 

Your riding buddy is trying to kill you! 


2 comentários

  • Rogério Lambert

    Muito bom.!!!!

  • Walter

    Muito boas todas as explicações a que se propôs o professor. Gostei demais e aprendi muito com tudo que foi exposto. Ótimo

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