Má Técnica no Dakar?

Má Técnica no Dakar?

Todos os anos, durante a altura do Dakar, tenho imensos alunos e ex-alunos a entrar em contacto comigo com uma dúvida: porque é que o que estou a ver os pilotos do Dakar a fazer não é o que ensinas, e são más posições de condução?

A resposta tem a ver com 4 pontos distintos, e hoje vamos falar de todos eles.

Treinar Não É Competir

O primeiro e segundo ponto misturam-se claramente, mas ainda assim são distintos no seu próprio direito. E isto porque ambos têm a ver com técnica pura.

Por um lado – e algo que documentei noutro artigo –, a evolução técnica no mundo das bajas tende a não seguir a mesma linha que se vê noutras disciplinas como o SX ou o MX. Assim, é natural que pilotos mais jovens apresentem uma consistência técnica diferente da dos pilotos de topo mais veteranos. Logo aí, vemos diferentes técnicas à cabeça.

Isso não quer dizer que os veteranos tenham má técnica de raiz – afinal são os melhores profissionais do mundo. Mas quando a base técnica vem mais tarde, o 'default' em alto stress tende a ser voltar às bases menos refinadas – e isso é o que podemos profissionalmente considerar como um erro técnico pontual. Ou, por outras palavras, o que muitas vezes vemos acontecer nas filmagens da prova.

Isto assim o é, porque é drasticamente diferente tentar ser tecnicamente perfeito e consistente em regime de treino – algo que a maioria deles consegue e faz regularmente – e em regime competitivo, principalmente quando se está a lutar pela vitória.

Um susto, uma lesão que esteja a chatear, um dia em que a mente não encaixa com o corpo e com a mota, até ficar-se picado com outro piloto. Tudo e mais alguma coisa pode ser o suficiente para se cometer um erro.

Aliás, se pensarmos bem, existe uma quantidade grande de quedas filmadas no Dakar, e isso não é por acaso, e encaixa perfeitamente no que estou a falar.

Imagina o momento: vais a rolar, ouves o helicóptero ao pé de ti e isso só significa uma coisa, câmara apontada diretamente para ti – a larga maioria dos pilotos sente a necessidade de 'dar espetáculo'. Sacar um cavalo, puxar um slide, seja o que for, o coração acelera, e num piscar de olhos, em alta velocidade num terreno complexo, um erro técnico facilmente aparece. Não é incompetência; é ser-se humano sob pressão extrema.

Embora muitas vezes as câmaras e helicópteros apareçam precisamente nas zonas mais perigosas, isso só reforça o quanto são uma distração inevitável à condição humana.

Importante dizer é que um erro não significa sempre uma queda. Um erro é isso mesmo, um erro, do qual se pode muitas vezes recuperar, de acordo com o modelo da cadeia de erro que descrevo no meu livro. Ou seja, nem sempre são recuperáveis, mas muitas vezes, principalmente quando não são erros críticos, e acima de tudo acumulados, significam somente isso, um erro.

As Roupas Enganam

Este problema não é de todo técnico, mas tal como qualquer outra coisa, requer uma linha de aprendizagem própria, neste caso, do espectador.

Como tal, é um problema que tende a chatear mais a fundo normalmente somente pessoas como eu, instrutores e treinadores profissionais que olham para técnica como forma de vida.

Isto porque se o mercado tem algo para oferecer são opções de roupas e de proteções, e muitas delas mudam drasticamente o desenho do corpo.

Mantendo-nos na ideia do Dakar, se olharem bem, normalmente eles parecem sempre que têm as costas dobradas, ou pelo menos não direitas. Isso não é real, é uma ilusão de ótica criada por tudo o que têm vestido.

Airbags, proteções de costas, bolsos no casaco, um potencial camel bag, tudo serve para modificar o desenho corporal de qualquer um, e isso reflete-se diretamente na análise da sua posição corporal.

Já perdi a conta às vezes que me aconteceu – e irá continuar certamente a acontecer – estar a dizer a um aluno que ele está a fazer esta ou aquela posição mal, e ele a insistir comigo que não. Até aqui tudo ok, é um processo relativamente normal e natural de aula.

O problema aparece quando a dada altura me sinto obrigado a fisicamente ajustar a sua posição, e ao fazê-lo, ter de lhe pedir desculpa, porque me apercebo que ele está efetivamente bem, e foi a sua roupa ou equipamento de proteção que me induziu em erro.

Algumas proteções de ombros e cotovelos são tendencialmente os suspeitos do costume.

Com o tempo, e como profissionais, tendemos a conseguir mais rapidamente entender o que é posição e o que é uma proteção a mentir, mas se ainda assim nós nos enganamos, é normal e natural que um olho menos treinado confunda mais facilmente os dois.

A Física Não Ajuda

Por fim temos o último ponto, e um que basicamente só vive no mundo das bajas. Este problema, ao contrário do que se pode pensar, tem zero a ver com técnica, mas sim com uma necessidade clara de desafiar a física.

Em esquema de baja, a necessidade de potência fica-se pela necessidade de se ser rápido. Fica-se maioritariamente pela necessidade de se conseguir mandar a mota e o piloto o mais depressa possível pelo track fora. Isso dita que tudo o que retire velocidade é um grave problema, principalmente quando se quer ganhar.

Assim, posições como cotovelos altos, costas direitas, e estar sentado no centro da mota – pontos basilares de uma boa técnica – podem ser um problema, pois aumentam em muito o quanto do corpo do piloto está exposto ao ar.

Uma mota do Dakar não é o mesmo que uma GT, onde se consegue ir confortavelmente a beber um Gin & Tonic e a fumar um cubano enquanto se rola a 160 km/h. Uma mota do Dakar tem somente um pequeno vidro na frente, o que significa que um piloto com muito corpo exposto se apresenta como um para-quedas, algo que não ajuda à ideia de velocidade.

É como um ciclista em sprint: de pé e aberto, torna-se uma vela contra o vento; mas quando se baixa e fecha, o ar desliza e a velocidade sobe. Se andaram de DT na vossa juventude, devem lembrar-se de fazer posições semelhantes. No Dakar, profissionais muitas vezes a rolar perto dos 160 km/h aplicam o mesmo truque – mas com o nível de execução que só eles têm.

Por isso, muitas vezes vemos pilotos de topo totalmente fechados nos braços, e muitas vezes até quase sentados em cima da luz traseira em terrenos bastante rápidos que teoricamente não pedem esse tipo de posição.

Não o fazem portanto para ganhar mais tração atrás, mas sim para se poderem esconder do vento, e permitir à mota aumentar a sua aerodinâmica, enquanto poupam energia.

Afinal, se o corpo não tem de estar a lutar contra o vento, vai-se ter mais energia no tanque para quando ela for precisa, e numa corrida de 15 dias, qualquer percentagem de energia poupada é vital para qualquer piloto.

Esta troca de técnica que oferece controlo por velocidade pura é algo que aconselho ao comum mortal? Não, longe disso. Mas atletas de topo não são comuns mortais, são profissionais a tentar ganhar, e isso obriga a riscos que nós não devemos entreter.

Tudo isto leva-nos ao ponto essencial que está por trás da pergunta que me fazem todos os anos.

O que se vê no Dakar não é aquilo que ensino porque o que ensino fora de treinos de competição não é a ganhar uma corrida de 15 dias, a rolar a 160 km/h sobre a terra, sob fadiga extrema, pressão constante e compromissos conscientes para melhorar performance.

O que ensino nas bases é técnica funcional, repetível e robusta para quem quer andar melhor, com mais controlo, mais margem de segurança e menos erros acumulados.

No Dakar, muitas das posições que parecem “más” não são falhas de conhecimento ou capacidade. São escolhas. Escolhas feitas por atletas de topo que sabem exatamente o que estão a sacrificar – controlo fino, margem de erro, estética técnica – para ganhar velocidade, poupar energia ou simplesmente sobreviver mais um dia na prova mais dura do mundo.

Confundir essas escolhas com técnica base é um erro de análise aceitável. Tentar copiá-las fora desse contexto é um erro mais difícil de digerir.

Por isso, quando olhas para um piloto do Dakar e sentes que aquilo não bate certo com o que andas a aprender, essa leitura está correta. Não devia bater, porque apesar de estarem no "mesmo tipo de motas" e terreno, não estão nem a jogar o mesmo jogo, nem com as mesmas regras.


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