Reação vs Flow

Reação vs Flow

Nunca devemos conduzir motas, principalmente fora de estrada, nem em reacção pura, nem totalmente focados. Isso significa que existe um ponto intermédio especial e, como tal, um que merece um artigo dedicado.

DIFERENTES ABORDAGENS

Existem basicamente três tipos de piloto em cima de uma mota: o que “em caso de dúvida acelera”, o que sobre-analisa e o que flui.

Se visualmente conseguimos fazer a distinção directa entre todos, e se por um lado dentro de nós todos temos um pouco de cada um - ou devíamos - por outro lado é justo dizer que o que flui tem algo mais único do que os outros.

Afinal, anos de análise, mesmo que não profissional, dos nossos heróis motociclísticos mostram um padrão de fluidez e consistência que, de certa forma, todos almejamos.

Assim, podemos concluir mais ou menos directamente que os outros dois casos são menos desejáveis no médio-longo prazo, e isso obriga-nos a entender como chegar à fluidez.

Em termos de ciência desportiva e psicologia, o estado de flow está bem definido por Mihaly Csikszentmihalyi. Inclui imersão profunda, distorção temporal, redução da autoconsciência e uma sensação quase “fora do corpo”. Isso existe, é real e está documentado. Mas esse estado não é obrigatório para se conduzir bem.

Isto porque, antes de qualquer flow, existe algo mais básico e estrutural: aquilo a que Fitts e Posner chamaram fase autónoma, onde a técnica deixa de ocupar espaço consciente e passa a ser executada de forma automática. Não tem romantismo. Não tem euforia. Não tem distorção do tempo. Tem apenas uma coisa: uma consistente resposta mecânica automática.

É precisamente a este estado de pré-flow que chamo condução funcional - ou condução, para simplificar. Por outras palavras, condução é quando a técnica já não ocupa espaço mental. Flow pode surgir por cima disto, sem dúvida, mas a sua existência não é condição mínima para que a condução em si exista.

E isto é especialmente relevante em actividades de risco como o fora de estrada. Porque, quando a técnica já não consome largura de banda mental, ficamos mais disponíveis para ler o terreno, escolher linhas, ajustar velocidade ou simplesmente decidir apreciar o que está à volta. É aqui que a experiência deixa de ser sobrevivência contínua e passa a ser uma escolha entre um mundo de abordagens possíveis.

Com isto em mente, a distinção sobre o que estamos a fazer torna-se simples.

Se o movimento corporal é consciente durante a execução de uma manobra, não estamos a conduzir. Isto porque, se estamos a pensar na técnica enquanto executamos a manobra, estamos efectivamente a treinar.

Se não estamos a treinar e também não estamos a conduzir, então estamos em sobrevivência, onde, em reacção pura, o corpo dá prioridade a movimentos grosseiros em vez de ajustes finos. O grande problema é que, quanto mais tempo passamos nesse estado de reacção, menos precisos nos tornamos. A tensão aumenta, o controlo motor fino diminui e as nossas escolhas possíveis reduzem-se.

É então importante não confundir a escolha entre uma descarga de adrenalina e cortisol da "condução de faca nos dentes" e a química mais estável da competência e do prazer sustentado oferecida pela dopamina e endorfinas de uma condução funcional a operar em pré-flow. Por outras palavras, não devemos confundir a escolha entre, com umas cervejas a mais, saltar para uma largada com um touro ou, no outro lado do espectro, em total controlo do corpo, ir dar um relaxado passeio de domingo em que vamos apreciar a vista mais do que pensar no estado do terreno.

Dito isso, é igualmente importante não confundir ir relaxado com andar devagar, porque o pré-flow, que equivale a uma condução funcional controlada, não é ditado por velocidade; aliás, atingir o estado de pré-flow é o que efectivamente abre as portas da real velocidade sustentada e consistente. Porque, quando essa porta se abre, podemos escolher ir depressa ou devagar, porque efectivamente temos controlo e, como tal, o poder de decisão.

Isso ajuda-nos então a entender os limites da condução de faca nos dentes, que tende a usar adrenalina como combustível. Esta condução não oferece escolhas, porque a adrenalina cria uma atenção em túnel, aumenta a tensão corporal e reduz o controlo motor fino. Atingido esse estado, mantermo-nos nele não é uma escolha, é quase uma necessidade, porque sair implica parar, reagrupar e recomeçar com um registo totalmente diferente, que podemos não estar equipados para escolher.

Agora, nada disto invalida a existência de nos divertirmos em treinos rolantes, pelo contrário. A dada altura obriga-nos é a saber distinguir claramente quando estamos a treinar e quando estamos a rolar.

Podemos então dizer que devem existir três estados mentais distintos em todos os pilotos: o de treino, o de condução e o de flow. Estes podem existir na mesma saída, no mesmo dia, no mesmo quilómetro. Mas nunca podem ocupar o mesmo segundo, e isso é uma distinção chave.

AS NECESSIDADES BÁSICAS DE CONDUÇÃO

Quando estamos em cima de uma mota, com o trilho à nossa frente, as nossas necessidades são claras e, na realidade, simples.

Temos de avaliar o terreno, escolher uma linha, escolher uma velocidade e agressividade e, basicamente, é isso. A posição corporal, como executar movimentos ou como sair de problemas, não deve fazer parte dessa lista. Isto porque, se fizer, não estamos efectivamente a conduzir; estamos, na realidade, a treinar.

Escusado será dizer que sou grande defensor da ideia de se treinar, por isso não vejo nada de errado aí. Mas, a dada altura, é preciso sermos claros e distinguir quando se está a treinar e quando se está a rolar.

Sim, o treino técnico puro deve ser feito com exercícios repetitivos, com pinos no chão. Mas assumir que esse é o único tipo de treino possível é errado. Por sinal, tão errado como assumir que só treino de campo é suficiente.

Isso diz-nos que deve haver progressão, e é aqui que as coisas começam a tomar forma.

Vamos imaginar um pugilista.

No ginásio - e além do condicionamento físico, que não vou abordar neste artigo - ele faz vários tipos de trabalhos diferentes. Sacos diferentes e alguns regimes de sparring equivalem aos nossos trabalhos de pinos no chão. Aqui é onde as sequências são trabalhadas, memorizadas e, acima de tudo, interiorizadas.

Para um pugilista, isso pode ser jab, jab, gancho, jab, uppercut, por exemplo. Para nós nas motas, pode ser pé e joelho bem posicionados, anca rodada, braços bem colocados, movimento pela anca, corpo acompanha e retoma à posição inicial.

É neste trabalho que todas as sequências base aparecem. Subidas, descidas, arranques, travagens e curvas, todas têm um movimento base, e é aqui que ele se treina e desenvolve. Isto equivale a um treino fora de estrada básico.

Mas, escusado será dizer, isso não chega.

Então começamos a treinar sequências mais complexas. E se numa subida queremos terminar com um salto? Introduzimos esse movimento extra na nossa sequência e treinamos essa nova rotina. E se a uma travagem se segue uma curva? Treinamos esse movimento.

Aqui começamos a desenvolver a capacidade de eliminar barulho. E o que é o barulho em condução?

É tudo o que nos obrigue a tomar decisões técnicas durante a execução. Flow não diz respeito a decisões rápidas; diz respeito a permitir que o corpo faça o que sabe fazer. E isso obriga a ensinar previamente ao corpo o que fazer.

Aqui podemos e devemos levar o nosso treino para o campo, porque lá começamos a encaixar os movimentos básicos que desenvolvemos “no ginásio”. Mas atenção: isso não significa simplesmente rolar. Aqui ainda estamos a treinar.

A DISTINÇÃO QUE IMPORTA

Com tudo isto em mente, devemos fazer saídas de campo especificamente para treinar ou podemos inserir treino no passeio domingueiro com os amigos?

Eu acredito que se pode juntar os dois, se se for honesto com a linha que os separa.

O objectivo de tudo o que estamos a falar é podermos, tal como um pugilista treinado, conduzir sem pensar, ou seja, focarmo-nos no terreno, na velocidade e nas linhas, e permitir que o corpo responda aos feedbacks da mota de forma natural, consistente, biomecanicamente sã e, acima de tudo, em modo automático.

Isso, no entanto, não significa que tenhamos de ser inocentes relativamente aos nossos pontos fracos.

Vamos analisar um cenário.

O Alberto é um tipo que faz o seu trabalho de casa, seja em termos de repetições, seja em termos de sequências. E, ao fim de semana, quer agarrar nesse trabalho e metê-lo em campo com os amigos, a fazer uns quilómetros.

Mas ele sabe que subidas técnicas longas ainda são um ponto fraco.

Como é um tipo inteligente e cuidadoso, vai com o alarme ligado, preparado para disparar quando, e se, encontrar uma dessas subidas. Isso significa apenas que existe um ponto de atenção especial que, se nunca aparecer, não muda em nada o resto da sua condução.

Os primeiros quilómetros passam e a sua condução, como seria expectável após tanto trabalho, flui como um jovem Muhammad Ali a dançar pelo ringue.

Mas o alarme dispara. Uma longa subida técnica aparece.

Nessa altura, o Alberto abranda, potencialmente para, mas, acima de tudo, muda o chip. Neste caso, muda do modo de condução automática para o modo de treino.

Isso quer dizer que agora não se vai focar apenas em velocidade e linhas. Vai visualizar o que precisa de fazer e, quando ataca a subida, vai com uma atenção especial a tudo o que está a executar.

Aqui está em modo de recolha de dados. O que fiz? Porque o fiz? Que resposta obtive?

A subida acaba, e ele reverte para o modo de condução automática para aproveitar o resto do passeio.

Assim, o Alberto é livre, porque sabe quando está a treinar e quando está a conduzir. E, acima de tudo, sabe que as duas coisas não ocupam o mesmo espaço mental, e isso oferece-lhe escolhas.

E tu, és como o Alberto?


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