Rebaixar motas é OK!

Rebaixar motas é OK!

Eu sei que este título deixa muita gente nervosa e pronta a chamar-me nomes, por isso, vamos lá explicar o porquê desta afirmação “criminosa”.

Dizem alguns peritos que rebaixar motas nunca se deve fazer porque destrói a geometria e a dinâmica. Seria uma leitura justa, se o mundo fosse preto e branco. Felizmente, não é.

Isto porque temos de aceitar que os engenheiros que desenharam esta ou aquela mota tentaram criar um produto equilibrado, para as massas, e não para cada indivíduo. E é aqui que, muitas vezes, começam os problemas.

Quando estou sentado na minha mota prestes a arrancar, a média de pessoas a que ela precisa de servir é uma: eu. E isso muda tudo. A nossa mota tem de servir os nossos propósitos e necessidades, não os de um grupo estatístico ou os do vizinho do lado.

Vamos assumir então que vou fazer principalmente areia. É destruir a geometria levantar ligeiramente a frente? Ou é jogar com ela a meu favor, adaptando-a ao tipo de terreno? Muitos atletas competitivos fazem esse tipo de gestão de pitch, subindo e descendo ligeiramente a frente da mota conforme o piso e o comportamento que procuram, ou em Rally Raid mexendo gasolina entre tanques. Será que estão errados?

Da mesma forma, é normal ver pilotos de SX e MX a usar o ajuste de corrente no máximo para aumentar a distância entre eixos. Mais uma vez, é “destruir” geometria, ou será que para o que precisam, estão a tirar o máximo proveito dela?

Se estes exemplos são aceites, então a pergunta é simples: são aceites apenas porque são feitos por e para profissionais, ou porque mexer na geometria de uma mota não implica necessariamente a destruição das suas capacidades, como tantos críticos do rebaixamento gostam de afirmar?

Geometria não é dogma

Por outro lado, há a questão do uso da mota em si.

Vamos assumir o Sr. João, nome fictício de uma entidade bem real que podemos ver como reflexo de nós próprios, ou de um amigo.

O Sr. João não é alto, mas gosta de motas altas e não consegue chegar ao chão com os dois pés bem assentes. Procurou conselhos sobre rebaixar e, depois de ser aniquilado por peritos online que abanam agressivamente a bandeira do “vais destruir a mota”, acabou por comprar outra mais indicada à sua altura de perna.

Se o problema dele é chegar ao chão com os dois pés bem assentes, podemos assumir à partida que o João provavelmente não é um piloto rotinado, nem com formação de base. Se o fosse, saberia que um só pé bem assente chegaria para usar a sua mota de sonho. Muito já escrevi sobre o tema, por isso mais vale ler o artigo dedicado no final.

Ainda assim, tentar chegar ao chão com os dois pés em vez de um, não elimina a possibilidade de o João precisar de rebaixar a mota na mesma. Apenas ajuda a determinar o quanto poderá ser necessário fazê-lo, uma distinção simples mas importante.

Assim, o ponto importante de discussão não é rebaixar ou não, é outro: alguém que se preocupa em chegar ao chão com os dois pés, tende a dificilmente conseguir tirar da mota que quer 100% - ou mesmo 70 ou 80% - do que ela permite. Afinal, se o conseguisse, a questão aberta de rebaixamento dificilmente se poria.

Dessa forma, e assumindo que quando retiramos alguma capacidade de algo que continua funcional o fazemos no seu expoente máximo e não num regime médio ou mínimo, a real questão revela-se: será que o João vai realmente perder capacidades que vá sentir, ou vai perder capacidades num tipo de condução que não irá fazer?
Eu inclino-me mais claramente para a segunda hipótese.

Dito isto, sei que vem aí a resposta habitual: “treta, uma mota rebaixada não entra em curva da mesma forma em que regime for e, na terra, perde altura ao solo e curso de suspensão.”

Sim, é verdade que uma mota rebaixada não entra em curva exatamente da mesma forma que uma mota idêntica, mas não rebaixada. Mas onde está escrito que isso é obrigatoriamente mau? E, se for pior, é pior em quanto exactamente? Se o João ficar, por exemplo, 20% pior a entrar em curva, mas finalmente conseguir usar a mota que quer, então é debatível dizer que não está 20% pior, eu diria que está efetivamente 100% melhor, se aceitar que está um pouco mais limitado.

Quanto ao outro ponto, na terra, uma mota rebaixada perde altura ao solo e curso de suspensão, isso é inegável. Mas esses números não determinam, por si só, o quanto o João ficou realmente pior.

Vamos assumir uma mota com 230 mm de curso na frente. Rebaixá-la cerca de 30 mm não implica perder 30 mm de curso 1:1. Dependendo do método, a perda real pode rondar 10 a 25 mm. Ainda assim, o essencial aqui é simples: a conta geométrica não diz quanto curso é que o João vai realmente usar no terreno.

Se o João, por ser pouco experiente, somente usar cerca de 150 mm em uso normal, continua a ter uma reserva entre 55 e 70 mm. Perdeu alguma folga? Sim. Mas continua a existir margem de segurança suficiente para o tipo de utilização que faz, e o rebaixamento não lhe tirou qualquer tipo de utilização prática. É isso que interessa. Pode não te interessar a ti, ou a mim, mas vale o mundo para o João.

E isto leva-nos a um ponto importante que é crucial referir: baixar a mota à custa de aumentar o sag "para manter geometria, curso, e distância ao solo" costuma ser uma abordagem pior do que baixar a mota como um todo e usar um sag correcto. Um sag exagerado empurra a mota demasiado para o meio do curso de suspensão, altera de forma imprevisível o rake/trail dinâmicos e rouba leitura de suspensão. Baixar com método, mantendo um sag correcto, tende a preservar a previsibilidade e o equilíbrio que se quer numa condução segura.

Se estivéssemos a falar de um atleta competitivo, ou de um piloto experiente que usa toda a suspensão e ainda assim bate com a pança no chão volta meia volta, qualquer centímetro a menos é prejuízo. Inegável! Mas para alguém a começar, ou alguém que compreende as limitações da sua máquina e conduz dentro delas, talvez não seja assim tão grave.

Quando baixar é a solução certa

Sou instrutor profissional, sou perna curta, e todas as minhas motas estão rebaixadas. E isso nunca me deixou pendurado em lado nenhum. Obriga-me a algumas escolhas pontuais? Sim, de vez em quando. Às vezes, em vez de ir direito a algo, vou 20 cm ao lado e resolvo. Uma vez em cada cem, talvez. Afinal, nem todas as motas de fora de estrada têm o mesmo curso e distância ao solo, por isso...

Assim, se precisas de rebaixar uma mota, define primeiro porquê. Se a resposta for “para chegar ao chão com os dois pés”, principalmente para andar na terra, estás a partir de um mau princípio, e isso é mais prejudicial do que qualquer rebaixamento.

Se estás a rebaixar porque, sem isso, nem com um pé consegues conduzir a mota que queres, então faz-lo com ajuda profissional e com a consciência de que a mota ficará, provavelmente, mais limitada.

Se esse limite for acima do uso que lhe dás, perdes pouco ou nada, porque vais poder usar a mota, ainda assim, dentro de uma margem de segurança válida.

Se esse limite estiver a roçar o que vais fazer, então tens de decidir se aceitas alguns compromissos, ou se aquela é ou não a mota certa para ti.

Com isto é preciso referir que é claro que há um limite. Baixar demais pode transformar qualquer mota numa caricatura do que é ou pode ser. Mas dentro de margens razoáveis (muitas descritas directamente pela fábrica), o equilíbrio mantém-se previsível, que é o que realmente interessa para ser utilizável. A geometria não é um desenho sagrado, é uma ferramenta de ajuste. Tanto que, até quando se empurra um pouco os limites de fábrica, isso pode jogar a nosso favor, porque o ganho de confiança e controlo supera a perda teórica de capacidade.

Fica por abrir a discussão sobre se uma mota demasiado alta para alguém tem ou não implicações nas restantes medidas do corpo, podendo tornar-se demasiado grande – debato isso a fundo no meu livro. Mas no que diz respeito a rebaixar, isso não altera em nada a discussão.

Rebaixar mexe mais com ideologias do que com prática. E, no fim do dia, usar uma mota que se quer, mesmo que a 80% do que pode ser, vale mais do que nunca a poder usar com os mínimos de segurança para começar.

Rebaixar não é criminoso, errado ou perigoso. Falta de conhecimento, de contexto e de compreensão das diferentes necessidades de cada um, isso, na realidade, é que costuma ser o verdadeiro perigo.


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