Controlo fino dos comandos
Infelizmente, controlo fino da embraiagem e do travão da frente é algo em falta pelos dias de hoje.
E não, experiência de condução pura não dita de todo que se ganhe essa capacidade, mas para quem quer evoluir, não é difícil atingir mínimos olímpicos, e mesmo superá-los.
ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA
Ao fim de mais de uma década de ensino continuo a ver – e arriscaria dizer que cada vez mais – pessoas a chegarem-me a treinos ou tours de fora de estrada, sem qualquer noção básica de controlo de embraiagem ou do travão da frente.
Agora é importante dizer que, neste tópico, experiência de condução pura de estrada é irrelevante, já que não me estou somente a referir a novatos. Diria até que este síndrome de “mão tensa” é mais visível em pilotos mais velhos, muitos com centenas de milhares de quilómetros feitos, mas com a sensibilidade nos comandos de um touro numa loja de porcelana.
Se por um lado culpo agressivamente a tecnologia, com divisões de travagem activa e quickshifts, não podemos atirar a sujidade para baixo do tapete e ignorar o verdadeiro culpado: o utilizador.
Seja por negligência inadvertida ou inocência, o piloto é o único verdadeiro responsável pela sua capacidade de controlo do veículo, e aceitar isso é o primeiro passo para retomar as rédeas.
E não me interpretem mal: quando falo em responsabilização pessoal isso não significa que alguém ande na mota a somar quilómetros na tentativa de poder dizer “isto vai mostrar ao Zé!...”. Refiro-me simplesmente à falta de consciência de que existe uma clara necessidade de desenvolver capacidades de raiz, e à noção de que algo funcionar não é o mesmo que executá-lo bem – aqui numa culpa que se pode atribuir claramente ao sistema de ensino de condução básica de forma generalizada.
Ainda assim, nada disso dita que o erro de leitura do piloto seja incompreensível, nem que seja porque a necessidade do controlo fino da embraiagem – começando por aí – só é visível de forma clara em manobras técnicas.
Se na terra consigo pensar em inúmeras situações onde ele é crucial, na estrada existe basicamente uma, que é ao iniciar a marcha. É isso. Assim, torna-se fácil e compreensível o porque de se misturar o conceito de execução funcional com o de capacidade de execução.
Portanto, se para quem anda somente na estrada a única altura em que precisa de “saber” usar bem a embraiagem é no arranque, e se não se anda constantemente em pára-arranca, esta manobra representa apenas uma percentagem mínima das necessidades diárias destes pilotos.
Assim, por mais experiência que se adquira em anos e quilómetros, se a utilização fina da embraiagem representa somente o primeiro metro, temos de aceitar que fazer 500 quilómetros seguidos continua a representar apenas uma instância de treino deste movimento. Por isso é que experiência aqui não pode ser medida em quilómetros, mas sim em arranques e treino específico.
O mesmo se aplica ao travão da frente.
Sendo este o travão mais importante da mota, seja em que tipo de piso for, se a experiência se acumulou em auto-estrada, ou mesmo em nacionais mas com principal recurso ao travão de trás, ou em motas com divisão de travagem, o travão da frente tende a ser usado apenas nos últimos metros antes de parar. Então uma rápida leitura demonstra que, no travão da frente, o problema é o mesmo da embraiagem, mas de forma inversa.
EVOLUIR NÃO É DIFÍCIL… DÁ É TRABALHO
Adoro a noção de fácil e difícil. Por um lado é extremamente pessoal; por outro, tem uma ironia única.
Como é que se corre uma maratona? Fácil. Metes um pé à frente do outro, num passo apressado, durante 42 quilómetros. Uma teoria básica, assente num movimento natural, com uma aplicabilidade directa estatisticamente difícil para o comum mortal.
O controlo da embraiagem e do travão da frente segue a mesma ironia.
Afinal, é só apertar uma manete, num movimento natural para a mão, que resulta numa reacção previsível da mota. É fácil… até se ter de dominar o ponto exacto dessa reacção. E é aqui que a ironia nos dá uma bofetada, mostrando a necessidade de treino específico.
Então a primeira coisa a compreender é o porquê de necessitarmos de controlo fino. Afinal, ninguém trabalha para algo que não entende.
Esta parte explicativa é efectivamente simples.
Desenvolver o controlo fino da embraiagem permite ser mais suave a usar a caixa e a arrancar, e oferece a capacidade de se ter controlo fino de velocidade e sensibilidade na roda sem destruir ou queimar nada na mota.
Pode parecer complexo, ou no mínimo contra-intuitivo, mas lembrem-se: o acelerador só diz ao motor a que rotação deve rodar. A embraiagem é responsável a 100% por quanta força dessas rotações chega à roda.
Se duvidam, acelerem a mota a fundo com a embraiagem puxada. A rotação sobe até ao corte, se for caso disso, e a mota move-se zero. Este pequeno teste e explicação não retira a necessidade de controlo fino de acelerador, mas isso é uma história diferente para outro artigo.
Se virmos então a embraiagem não como um botão de on/off, mas como uma torneira, percebemos que a podemos abrir ou fechar ao milímetro. Podemos, portanto, deixá-la um pouco aberta, deixando a água passar, sem estragar rigorosamente nada.
Como desenvolver esta capacidade? A forma mais simples é mesmo fora da mota.
Ponham-se ao lado da mota, em pé, mãos nos comandos, olhos uns metros à frente da roda da frente, no sítio para onde querem ir. Nada no mostrador da mota é relevante para este ou qualquer outro exercício.
Comecem a libertar a embraiagem, dando um pouco de acelerador, até a mota avançar. Vocês, como pilotos durante este exercício, não podem estar a empurrar a mota nem a correr atrás dela.
Quando conseguirem fazer o exercício em recta, introduzam curvas. Primeiro para um lado, depois para o outro.
Na evolução seguinte, repitam o exercício num local com uma ligeira inclinação.
Se não notaram em piso plano, vão notar agora que instintivamente vão usar o travão da frente e vão automaticamente sentir a necessidade de o dosear. Caso contrário, vão sentir a mota a afunilar agressivamente quando travam, ou a acelerar em demasia quando libertam o travão.
Como nota, um travão a chiar numa mota a andar a baixa velocidade, em exercícios como este, é excelente. Pois é um sinal claro de que, mais um milímetro de travão, a mota vai parar; menos um milímetro, e a mota vai acelerar.
Quando estes movimentos estiverem confortáveis, saiam do lado esquerdo da mota – onde tenho a certeza que se imaginaram – e façam-no do lado direito.
Este pequeno gesto permite-vos usar mais 50% da mota que já compraram e desenvolver capacidades em posições diferentes. Posições essas que, quando estiverem em cima da mota a fazer uma curva apertada na terra, por exemplo, vos serão requeridas.
Desenvolver capacidades não tem de ser complicado ou difícil, mas isso não significa que seja rápido ou natural.
A evolução de cada um é a evolução de cada um. Estamos todos a andar no mesmo sentido, mas cada um pelo seu trilho e ao seu ritmo. Afinal, andar de mota tende a ser um desporto individual feito em grupo.
Por isso, não te preocupes com o ritmo a que evoluis. Preocupa-te com a qualidade das bases que tens para evoluir, preocupa-te em querer evoluir e preocupa-te principalmente com o primeiro passo: começar.