Em caso de dúvida, acelera

Em caso de dúvida, acelera

Como instrutor de fora-de-estrada não interessa se estou a ensinar enduro, mx, sx, ou adventure, obrigo-me sempre a usar o meu melhor português para garantir que passo a informação relevante o mais corretamente possível.
 
As palavras têm peso, importância, e confundi-las ou não as compreender bem pode gerar mal entendidos e até mesmo situações perigosas.
 
Hoje, vou tentar clarificar um paralelismo que muitos fazem, e que em nada é semelhante.
 
A assunção de que momento e velocidade são uma a mesma coisa, e de que usando mais da segunda iremos superar mais dificuldades.
 

ACELERAR MAIS RESOLVE POUCO

Há certos marcos na vida de qualquer motociclista que são rapidamente atingidos.
 
A primeira vez que se deixa a mota ir abaixo, a primeira vez que se anda sem equipamento porque “é já ali”, a primeira queda fora-de-estrada, e a primeira vez que alguém nos diz que o que precisamos é de mais velocidade para superar esta ou aquela dificuldade.
 
Passo a passo, o bingo do iniciante rapidamente se preenche, e com ele, começam a ficar marcados na memória alguns erros de linguagem e perceção.
 
Não há dúvida que alguma velocidade resolve muitos problemas fora-de-estrada, tantos que arriscaria a dizer que quase que é maquilhagem para erros técnicos.
 
Isto porque num mundo em que a larga maioria das marcas, quer o diga ou não, aposta forte em motas de venda ao público derivadas diretamente de versões de competição, não é complicado compreender que a passo de corrida a mota tende a parecer mais fácil.

Imagem via adbmag.com.au
Imagem via adbmag.com.au

Buracos parecem desaparecer, areia torna-se pouco mais do que pó debaixo das rodas, saltos têm aterragens suaves, e curvas parecem ter tração mesmo nos pisos mais soltos.

Esse resultado empírico associado á ideia de que o que é preciso é velocidade parecem ter correlação, e ai começam os problemas, pois a velocidade não é o ponto fulcral. 

Com isso em mente, temos de compreender qual é, pois só entendendo o que é que a velocidade está a fazer a podemos utilizar a nosso favor e não como ilusão de controlo.
 
A falha desta compreensão é a razão pela qual regularmente se vê nas mais variadas pistas e trilhos, pilotos a tentarem ser rápidos mas na realidade a conduzir no que se pode somente definir como o ”limiar continuo de um acidente”.
 

Imagem via themotocrosslife.comImagem via themotocrosslife.com


Na realidade, quando o relógio começa a contar, essa abordagem não é de forma alguma a melhor quando comparada com os tempos de um piloto regularmente consistente e em controlo.

Então porque é que a sensação de velocidade e o som dos motores a gritar não significa ser efetivamente mais rápido e seguro?

A FISICA NÃO MENTE

Existem duas “posições de potência” em cima de uma mota; a acelerar, e a travar.

Poder-se-ia dizer que desembraiado e a “deixar ir” também é possível, porque fisicamente, é, no entanto, é um erro em muitas situações e dificilmente poderá ser considerada uma posição de potência, pelo menos em moldes competitivos.
 
De uma forma muito simplificada, ao travar, estamos efetivamente a deslocar peso para a frente, o que se traduz em carga no pneu da frente.
 
Ao acelerar, estamos a deslocar peso para o pneu de trás, o que se tudo correr bem se traduz em tração, o que nos propulsiona para a frente.
 
Sendo que o nosso trabalho em cima da mota como pilotos é equilibrar essas duas situações de forma a mantermos a mota o mais estável possível durante o processo, assumir que acelerar é sempre a melhor solução é à partida um erro, pois aposta numa clara destabilização do veiculo.
 
Afinal de contas, andar em cavalo não é de forma alguma a maneira mais rápida de conduzir uma mota.
 
Pode ser a mais exuberante, mas garantidamente não é a mais rápida.
 
Dito isto, temos ainda o que eu chamaria de cálculos de corrida.
 
Vamos assumir como exemplo um salto em pista de mx ou sx.
 
Saber a velocidade a que precisamos de atacar o salto para que não seja curto nem demasiado longo, é calculável.


Imagem BN EndurocampImagem BN Endurocamp


Isto exemplifica bem como utilizar a máxima de “em caso de dúvida acelera” pode borrar a maquilhagem.
 
Neste caso, pode não só garantir que aterremos fora da zona desejada, como forçar a aplicação de técnicas demasiado avançadas para muitos para salvar a situação.
 
Utilizámos o exemplo de um salto em pista, mas uma aceleradela brusca sem posição técnica para tentar passar um buraco ou tronco num trilho pode de igual forma significar perder tração ou bater de frente contra o obstáculo em vez de o transpor.
 
Isto significa que em vez de nos focarmos na velocidade nos devemos focar antes num conceito físico mais complexo, o momento.
 
Momento esse que na prática é gerido por nós através de uma boa aplicação técnica conjunta e sequencial das nossas duas posições de potência.

FLOW FLOW FLOW

Falámos no passado de como preparar o nosso corpo para facilitar a entrada no estado de flow, aquele estado em que tudo corre bem e em que a mota flui de um lado para o outro.
 
É importante agora entender como preparar a mota para esse estado, já que a condução deve ser vista como uma dança entre o piloto e a mota.
 
Ainda que ambos necessitem de ter o seu grau de liberdade, se não houver sintonia, alguém vai acabar com os pés pisados ou com o rabo no chão.

 

Imagem via MX FactoryImagem via MX Factory 


Com essa analogia em mente, devemos, tal como a dançar, dar algum pré-aviso á nossa parceira do que irá acontecer, sendo pró-ativos nos movimentos técnicos, e não reativos.
 
Sendo consistentes e lineares nas nossas travagens e acelerações, conseguimos fazer com que as reações da nossa mota sejam mais previsíveis e os seus movimentos encadeados, atitude que aumenta a nossa consistência e segurança.
 
É importante nesta fase relembrar que o acelerador não é um botão de on e off, pelo que um por cento de acelerador é por definição estar a acelerar, um conceito importante de ter em mente pelos fans de andar desembraiado.
 
Desta forma, e sabendo já à cabeça que acelerar em caso de dúvida não é o recurso a usar, utilizar momento é a palavra e técnica correta.
 
No entanto, momento e velocidade ficam muitas vezes confundidas no léxico comum, e isso é algo que devemos corrigir.
 
Podemos de uma forma geral e simplificada definir velocidade como uma distância percorrida num determinado espaço de tempo.
 
Definimos então momento como uma massa - o que significa o peso da mota e do piloto - multiplicada por uma determinada velocidade.
 
De uma forma extremamente simplificada, podemos considerar o momento como a quantidade de movimento numa determinada direção, ou inércia em movimento, se preferirem.
 
 
 
 
Dito isto, até com o motor desligado continuamos a ter momento, o que não temos é um momento constante, uma vez que provavelmente nos encontraremos a perder velocidade.
 
Compreendendo o peso da nossa mota e como ele se mexe, começamos a compreender como o poder mexer num determinado espaço, começando a compreender o conceito de massa em movimento em termos práticos.

OUVE OS MAIS RÁPIDOS DO MUNDO

O objetivo quando estamos na mota e queremos ser consistentemente rápidos?

Tentar manter o nosso momento o mais constante possível.
 
Faz um exercício e tenta ouvir uma corrida de SX de 450cc.
 
E sim, ouvir, não ver.
 
De uma forma geral aquelas motas quase não aceleram a fundo, ficando-se por pouco mais do que acelerar o suficiente para obter o momento necessário para passar esta ou aquela dificuldade.
 
Ir a 100km/h numa reta, travar a fundo fazer uma curva a 5km/h, e voltar a acelerar o máximo possível até á próxima travagem a fundo torna-se mais lento do que fazer tudo a 60km/h, por exemplo.
 
No mesmo conceito, é fisicamente incrivelmente mais desgastante tentar manter a primeira opção durante vinte ou trinta minutos seguidos do que a segunda.

Isto diz-nos que motores a gritar e tentar ser super agressivo sem um plano de jogo coerente vai ser mais lento e mais cansativo do que ser consistente e controlado.
 
Assim sendo, quanto melhor fores tecnicamente, mais velocidade vais conseguir imprimir durante todo o percurso, ou melhor, mais momento irás conseguir manter.
 

Imagem via blog.wiseco.comImagem via blog.wiseco.com


A física por detrás de todos estes conceitos é mais complexa do que o explicado aqui, e muito mais conceitos como tração, suspensões e até mesmo geometria das motas poderiam ser discutidos para fazer jus a um tópico tão complexo.

No que toca á física em si, quem tiver interesse em compreender melhor momento, inércia, velocidade, aceleração e outros tantos conceitos vai-se deparar com o mundo que dita as leis de como as nossas motas se movem.

Uma leitura interessante, mas não obrigatória para quem quer tirar mais da sua mota.

Dito isto, e uma vez que a ideia deste artigo não é ser uma aula de física, mantenham simplesmente em mente que a utilização de mais velocidade para ultrapassar dificuldades ou ganhar tempo em nada substitui técnica pura.
 
Tudo o que estás a fazer ao “dar gás” para conseguir passar algo, é tratares-te como uma bola de demolição na esperança de que o que quer que seja que queres passar não te vai abrandar o suficiente para te fazer parar.
 
Isso é extremamente perigoso e demonstra total desconhecimento do que estás a fazer em cima da mota.
 
Assim sendo, não utilizes velocidade como uma forma de melhorar técnica.
 
Melhora a tua técnica por reduzires a tua velocidade e compreenderes bem o peso da tua mota e como ele se movimenta.
 
Melhorares a tua capacidade de seres mais consistente com os teus movimentos vai melhorar o teu controlo de momento, e isso vai significar mais segurança e uma capacidade maior de imprimires mais velocidade geral e conseguires superar mais dificuldades na pista ou nos trilhos.

 

 

Your riding buddy is trying to kill you!


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