Do Dakar para o Mundo

Do Dakar para o Mundo

Sempre ouvi frases como “Instrução fora de estrada é estúpido! Ninguém precisa de pagar para aprender, precisa é de gasolina e km para desenvolver, e se aparecerem no Domingo há sempre alguém a dar umas dicas!”. Desde que me comecei a especializar em técnica em 2018, esse tipo de abordagem não melhorou.

Não me entendam mal, este artigo não vai ser um queixume pessoal de forma nenhuma. Vai ser uma apresentação de dados que prova que aprender técnica nos dias que correm, da forma como se ensina hoje, vale muito mais do que muitos podem pensar.


A Prova Está nos Dados


Há anos que defendo uma ideia simples: aprender bases fundamentais e fundamentadas é a chave para aumentar muito a nossa segurança fora de estrada, assim como o nosso divertimento – seja em regime lúdico ou profissional.

Afinal, da mesma forma que as bases da língua são as consoantes e as vogais, independentemente do que se quer fazer com isso – de escrever um romance a mandar uma mensagem sem erros e sem recurso ao auto-correct –, nas motas não é diferente.

Uma boa posição sentado e em pé, conhecimento de curvas, subidas, descidas, travagens rolantes e de emergência, e um entendimento geral – mesmo que básico – de como a mota, o corpo e a mente funcionam, são as bases de qualquer boa condução.

Esta abordagem está a anos-luz da tentativa e erro que muitos ainda insistem ser o gold standard da aprendizagem e evolução. E se muito já escrevi ao longo dos anos sobre o assunto, com o Dakar 2026 a meio, estamos num excelente ponto para fazer uma ligeira análise do que diferentes métodos de ensino oferecem ao mais elevado nível de condução – sem esquecer que o Dakar não é só feito por atletas profissionais!

Neste dia 7 da prova, dia de descanso, podemos fazer uma pequena análise das primeiras 6 etapas, e com elas, alguns dados saltam claramente à vista.

No top 20 das motas, encontramos dois pontos absolutamente fantásticos.

O primeiro é que temos 5 rookies, algo que não só é extremamente incomum na história da prova, como é uma verdadeira prova de que recém-chegados à prova mais dura do mundo não estão simplesmente a sobreviver, estão a dar cartas - lembrando que o nosso Ventura chegou mesmo a ganhar uma etapa em Rally2.

Outro ponto é a idade média do top 20. Com bastantes pilotos muito jovens, vemos a idade média nos 30,5 anos, um claro contraste com as edições dos anos 2010, onde essas idades estavam nos 35+.

O Que É Que Isso Significa?


Bem, de uma forma geral, estes pequenos dados – que são replicáveis noutras provas e disciplinas – sublinham o que venho a dizer há quase uma década: que as novas gerações, que estão a aprender com bases muito diferentes das antigas, têm uma evolução muito mais rápida, que lhes permite chegar a um nível elevado e sustentado muito mais cedo.

O que estes dados mostram não são genéticas milagrosas, mas sim eficiência, eficácia e trabalho de casa cumprido. Mostram que aprender melhor e mais cedo produz resultados.

É justo dizer que nem todos aqueles pilotos cresceram em programas de ensino dedicados. Ainda assim, mesmo os mais autodidatas adotam hoje uma preparação física séria, multidisciplinaridade e consistência técnica – coisas que gerações anteriores (e muitos atuais) ainda consideram irrelevantes, ou citando alguns "estúpidas".

Agora, se mesmo pilotos autodidatas, com esta pequena modificação de visão sobre o desporto que escolheram, conseguem tão rapidamente atingir resultados, o que é que achas que um bom treino de fora de estrada pode fazer por ti, no regime lúdico em que gostas de andar?

Pode aumentar imediatamente a tua segurança? Pode aumentar diretamente o teu divertimento? Pode abrir portas que nem sabias que existiam para ti?

Se a resposta é um redondo sim para todas essas perguntas – e muitas mais que poderiam estar descritas –, existe ainda mais um ponto que podes (e deves) ter em mente.

Segundo investigação da Universidade de Scranton, popularizada pela Forbes, Statistics Brain e US News, somente 8 a 9% das pessoas de facto seguem as suas resoluções de Ano Novo até ao fim do ano.

Por isso, se algures no final deste ano pensaste “este é o ano em que vou aprender e curtir com a minha mota na terra”, então podes estar a um treino de distância de seres um outlier em teu próprio direito.

A morte e os impostos são daquelas realidades inevitáveis da vida, mas eu diria que aceitar que a forma como aprendemos muda, deveria ser a terceira.

Por isso fica a pergunta: este é o ano em que evoluis, ou o ano em que vais continuar a cavar buracos no chão com uma pedra, quando tens a pá a olhar para ti?

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