Auto-didata na terra?

Auto-didata na terra?

Devo ser autodidata ou não quando se trata de aprender a conduzir na terra?

Como instrutor profissional, existe para mim apenas uma resposta verdadeiramente correcta quando olhamos para esta pergunta pela lente da evolução sustentada, da segurança e, no fundo, do bom senso.

E não, essa resposta não é “façam sempre formação estruturada”.

PROBLEMAS GERACIONAIS

Por um lado, aceitamos todos, e passamos os nossos filhos – como nos passaram a nós – que devemos ir à escola para aprender. Aprender o quê exactamente, isso é quase secundário. Seja música, desporto, artes ou qualquer outra área, insistimos que exista um professor, um instrutor, um treinador, ou no mínimo um local adequado para o efeito.

No entanto, quando chegamos às motas, especialmente às motas de terra, essa lógica tende a cair por terra.

Aqui, escolhemos maioritariamente ser ensinados por família ou amigos. E isso é visível, sobretudo – e cada vez mais – nos dias de hoje.

Se profissionais de ensino conseguem identificar vários erros de condução tipicamente geracionais, hoje, até iniciados com um olho mais atento facilmente identificam discrepâncias técnicas.

Por exemplo, curvas feitas com e sem o pé no chão são, neste momento, provavelmente o ponto de maior disparidade visível entre diferentes tipos de pilotos, mesmo dentro das mesmas idades.

No entanto, essas falhas de abordagem não existem somente para quem aprendeu em família. Aplicam-se também a quem não teve sequer esse ponto de partida e acabou por recorrer directamente à segunda melhor hipótese disponível: a internet.

E nesse tópico, convém esclarecer uma coisa desde já. A internet é um poço sem fim de informação absolutamente fantástica. Há pouco a acrescentar a essa afirmação, é um facto irrefutável.

O problema não está então na quantidade nem na qualidade potencial da informação, mas sim na forma como ela é apresentada e consumida.

Isto porque a maioria do conteúdo disponível é pouco curado e tem contexto limitado. Mas, acima de tudo, porque tende a não oferecer contacto humano. E estes pontos fazem toda a diferença.

É então importante não confundir as coisas, porque apesar de existirem inúmeros cursos online, programas de treino e recomendações de conteúdos, isso não é directamente o mesmo que um programa desenhado com uma pessoa real com objectivos específicos em mente. E essa diferença, apesar de subtil, é crítica.

Um programa de treino pode e deve ser generalista na sua estrutura. Dizer o contrário seria intelectualmente desonesto. Ensino generalista, no entanto, é um monstro totalmente diferente.

Um instrutor ou sistema de formação com pés e cabeça tem de ter um mapa de conteúdos e objectivos, mas também tem de ter a responsabilidade de levar cada aluno pelo caminho certo dentro desse mapa.

Isso pode significar saltar etapas, voltar atrás, sair temporariamente do programa para trabalhar outras valências, ou até reconhecer que aquele percurso específico não faz sentido para um determinado objectivo. O que, em alguns casos, pode mesmo significar não iniciar o processo de todo, porque o programa disponível, mesmo com adaptações, não é compatível com aquilo que a pessoa procura.

Colocar todas essas decisões nas mãos de alguém auto-didata e recém-chegado a um desporto técnico e de risco equivale, muitas vezes, a entregar uma arma carregada a alguém cujo único contacto com armas foi através de filmes. Pode correr bem. Mas a probabilidade de um tiro no pé é real.

Isto acontece porque o contexto entre aquilo que queremos, aquilo que achamos ser o caminho, e aquilo de que realmente precisamos está frequentemente perdido entre ideias, ideais e noções afastadas da realidade. Alinhar esses pontos é o que permite transformar conteúdo generalista em aprendizagem útil e direccionada.

Uma boa dose de auto-confiança é necessária neste desporto. Mas decisões erradas tomadas com base nela, sobretudo no início, tendem a criar problemas que gostam de nos acompanhar para o futuro.

CONTACTO HUMANO

Recorrer a amigos que estão no mesmo percurso que nós, ou ligeiramente à frente, é válido, mas isso não torna a opção menos limitada. Isto porque sabemos que um bom professor não é alguém que se limita a despejar matéria. É alguém que ajuda a navegar essa matéria, a interpretá-la e a explicar como ela se aplica ao mundo real e à realidade individual de cada aluno.

Infelizmente, poucos de nós tivemos essa experiência em contextos escolares tradicionais, mas neste desporto, temos liberdade de escolha. Por isso, podemos não só escolher o nosso instrutor, como optar por treinos de grupo de tamanho reduzido, onde garantimos conseguir ter mais atenção dedicada – que na minha opinião é a melhor forma de ter um primeiro contacto com a terra – ou por formatos de um para um, seja numa fase inicial ou posterior.

Isso pode implicar termos de perder tempo a procurar escolas que ofereçam essas hipóteses, até ao limite de termos de nos comprometer com algumas horas de viagem para lá chegar se não tivermos uma à porta de casa. Mas quando falamos de evolução e segurança pessoal, devemos considerar esse trabalho como um pequeno preço a pagar para atingir o nosso objectivo.

O AUTO-DIDACTA EXEMPLAR

Mas vamos agora assumir um perfil ideal para um auto-didata.

És alguém que lê, que se informa a sério, que tem espírito crítico, capacidade de auto-análise e pragmatismo. Perfeito. Tens, à partida, um conjunto de valências em falta na generalidade.

Munido dessas bases pessoais, escolhes vídeos de diferentes instrutores, ouves podcasts específicos, e dedicas tempo a ler análises técnicas cuidadas. Um verdadeiro cocktail de ensino de qualidade.

Mais tarde, e sozinho, colocas cones no chão, trabalhas bases, repetes exercícios, porque percebeste cedo que evolução não se soma – só – em quilómetros, soma-se em controlo, principalmente no início.

Até aqui, tudo certo. Mas é igualmente precisamente aqui que a maioria dos melhores processos de auto-ensino começa a falhar.

Não por falta de esforço, nem por falta de inteligência, mas por ausência de supervisão e de feedback analítico externo. Sem um olhar treinado a validar o que está a ser feito, entramos facilmente num ciclo fechado onde a única métrica de sucesso passa a ser “não correu mal”, “não caí”, ou “a mim parece-me como no vídeo”.

É expectável, e desejável, que alguns ajustes aconteçam por auto-recriação durante este processo. Mas raramente existe uma visão completa do que está realmente a ser consolidado, trabalhado e modificado. E isso não tem directamente a ver com falta de know-how ou capacidade inata.

Quando esses limites são ultrapassados de forma subtil, tornam-se imperceptíveis. Isso leva a uma confiança crescente, que nem sempre é acompanhada pela mesma medida de competência. E é aqui que erros deixam de ser corrigidos e passam a ser normalizados.

É neste ponto que o efeito Dunning–Kruger se instala e a percepção da realidade como algo “fixo” e incorrigível se começa a enraizar.

Ser autodidata é válido. Requer coragem, disciplina e trabalho sério, e isso é sempre de louvar. Além disso, é uma abordagem profundamente ligada à história deste desporto, que nasceu e evoluiu em trilhos isolados, longe de estruturas formais.

O problema não está então em aprender sozinho. Está em ficar sozinho durante todo o processo.

Uma abordagem híbrida tende a ser incomparavelmente mais eficaz. Um treino inicial com alguém qualificado, com a intenção clara de continuar a evoluir de forma autónoma, cria bases sólidas e desenha um plano que pode ser seguido em casa.

Um bom instrutor não se limita a ensinar exercícios. Dá contexto, aponta direcções, indica referências fiáveis e ajuda a construir critérios para melhores decisões futuras, em esquema de auto-evolução.

Assim, mesmo quando a autonomia é o objectivo, procurar supervisão pontual continua a ter valor, muito valor. Não como muleta, mas como sistema de verificação. Eu próprio, enquanto profissional, recorro e continuarei a recorrer a outros olhos quando necessário.

O ensino estruturado serve para criar literacia. A autonomia serve para a consolidar. E a supervisão externa, mesmo que pontual, serve para impedir – ou dar valor a – desvios do padrão expectável.

Por isso lembra-te: podemos encontrar sozinhos o livro que contém todo o conhecimento. Mas se não soubermos bem o nosso ABC, dificilmente conseguimos ler o título bem o suficiente para perceber se aquilo que lá está dentro é, ou não, o que realmente precisamos.


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