Aprender à chuva?

Aprender à chuva?

Devemos aprender a andar de mota fora de estrada na chuva ou com tempo molhado?
Existe uma altura ideal, em termos climatéricos, para fazer formação?

Estas perguntas podem parecer ridículas para muitos, mas não são. São centrais para quem se leva a sério, para quem se preocupa com a sua segurança e para quem encara a formação como um investimento real em si próprio.

A resposta curta é simples: depende. E depende muito menos do calendário ou da meteorologia, e muito mais do ponto onde cada um está no seu processo de aprendizagem.

DIFERENTES NÍVEIS, DIFERENTES CONDIÇÕES

Como profissional de ensino em duas rodas, dou formação ao longo de todo o ano. Isso, no entanto, não significa, nem de perto nem de longe, que recomende que toda a gente faça formação em qualquer altura apenas porque lhe dá jeito, ou porque a ideia seja apelativa.

Se por um lado seria muito mais fácil garantir uma entrada de capital constante ao dizer que qualquer condição serve para tudo, por outro, dizer a alguém altamente motivado que talvez esta não seja a melhor semana, ou o melhor momento do ano para começar, não é o que consideraria confortável.

Ainda assim, afirmar peremptoriamente que “treinar com chuva é errado” seria igualmente uma sobre-simplificação da situação. Isto porque existem diferentes formações para diferentes níveis – e objectivos pessoais – e é aí que a conversa deixa de ser directa e a nuance deve ser explicada.

Afinal, e primeiro que tudo, estamos a falar de um desporto de natureza. Mais cedo ou mais tarde, lidar com o que ela nos oferece faz parte do processo.

Com isso em mente, para quem já tem bases formativas, frio, chuva ou desconforto meteorológico deixam de ser um potencial problema central e passam a ser apenas parte das regras do jogo. Além disso, tempo menos que perfeito permite-nos, em formação, treinar detalhes e situações incrivelmente difíceis – senão impossíveis – de replicar em tempo seco.

Outro ponto-chave é que tende também a haver uma diferença clara no equipamento e na preparação dos alunos que nos aparecem para treinos pós-iniciais versus os que ainda não passaram essa fase. Uma diferença que se reflecte igualmente na forma como gerem o esforço físico, mental e emocional.

Isso porque, nessa fase ligeiramente mais avançada, até uma queda deixa de ser um choque para a alma e passa a ser uma realidade inevitável dentro do que foi construído nas bases em torno de um contexto controlado.

Essa falta de contexto empírico é a razão pela qual um simples tombo – que poderíamos definir como uma queda sem ou com pouca velocidade – se pode facilmente tornar num cenário profundamente penalizador e, arriscaria mesmo dizer, assustador, e com razão, para quem se está a iniciar.

Podemos então, nesta fase, fazer uma distinção clara entre alguém a pôr os pneus na terra pela primeira vez e alguém que já passou, pelo menos, por um treino de fundamentais.

CHUVA NÃO É O PROBLEMA. O TERRENO É.

Agarrando em todo este contexto, quando falamos de aprendizagem inicial, a variável crítica que se destaca não é se está a chover ou não, mas sim se o terreno mantém estrutura e feedback. Um ponto largamente mais importante, e facilmente confundido com a meteorologia pura.

Num piso escorregadio e inconsistente – como terra com pouca drenagem ou empapada, por exemplo – o feedback consistente, crucial para aprender e desenvolver, desaparece ou, no mínimo, torna-se demasiado variável metro após metro. Por isso, o risco de qualquer manobra aumenta, a leitura do comportamento da mota fica turva e a qualidade da aprendizagem – na que é possível – tende a cair a pique.

Isto porque, neste tipo de condições, o problema não é apenas técnico. É decisional.

Sem feedback consistente, o aluno não aprende, reage. E este ponto é fulcral, porque quando o início de um processo de aprendizagem é dominado pela reacção em vez da compreensão, a decisão seguinte raramente é consistente, consciente e, por vezes, sequer presente.

O resultado de formações iniciais nesse tipo de condições torna-se, portanto, previsivelmente expectável.
Medo, tensão excessiva e, inevitavelmente, o plantar de uma semente para uma autocrítica mal dirigida.

Dessa forma, muitos acabam por concluir que não têm jeito para conduzir, que a mota e/ou os pneus que têm não prestam ou que o fora de estrada simplesmente não é para eles. Não porque isso seja verdade, mas porque tentaram aprender em condições que lhes ofereceram um input totalmente errado, ao que pode ter sido um output de esforço e dedicação perfeito.

Por outro lado, quando o terreno está seco ou, no mínimo, estável, mesmo que o clima não seja perfeito, abre-se uma porta que muitos desvalorizam: a do acesso.

Temos de ser honestos: nem toda a gente quer – ou deve! – investir centenas de euros em pneus de terra somente para experimentar um desporto que pode vir a não seguir.

Afinal, existem muitas motas por essas estradas com capacidade real de fazer terra, mas equipadas com pneus de estrada. É, por isso, perfeitamente legítimo que nem toda a gente queira recorrer a motas alugadas para uma formação inicial e prefira usar o que já tem. E não há nada de errado com isso.

Aliás, é uma opção que faz bastante sentido. Treinar com a mota pessoal reduz barreiras de entrada, permite decisões mais informadas para o futuro e evita investimentos prematuros em equipamento que pode nunca mais vir a ser usado. E isso alinha-se quando o objectivo da formação base não é provar nada a ninguém, nem aprender a conduzir de faca nos dentes. É ensinar bases e criar referências sólidas e honestas, algo que a nossa própria mota tende a oferecer como nenhuma outra.

Dito isto, treinar com motas alugadas continua a ser uma opção válida e com vantagens claras, sobretudo numa fase inicial. A progressão tende a ser mais rápida, o equipamento está optimizado e a margem de erro é maior, enquanto poupamos a nossa montada a um risco ocasional ou a um espelho partido.

Mas, como quase tudo neste processo, essa escolha tem um custo que vai além do monetário.

A aprendizagem feita numa mota que não é a nossa cria uma transferência imperfeita de conhecimentos quando regressamos à mota pessoal. Peso, geometria, resposta do motor e suspensões mudam. Para alguns, isso não é um problema. Para muitos, traduz-se num retrocesso que nem sempre é fácil de ultrapassar, e isso é crucial ter em mente no momento da decisão.

Em contraste, treinar com a própria mota tende a oferecer um início mais lento, mas constrói uma evolução contínua e sustentável. Nenhuma destas opções é “melhor” por definição. São escolhas diferentes, com consequências diferentes.

O que importa reter é que as consequências da mota com que se treina sejam claras à partida, sobretudo quando se pensa em alugar apenas para compensar problemas de consistência de terreno ou, por outras palavras: “está mau tempo, não quero levar a minha mota”.

Dito isto, é igualmente importante deixar outra coisa clara: informação não é o mesmo que proibição.

Existem pessoas à procura de treinos iniciais com prazos, projectos, viagens marcadas ou simplesmente com uma vontade muito clara de avançar, independentemente das condições. E isso é legítimo.

Por isso, conhecer os limites de algumas escolhas não obriga – nem deve obrigar – ninguém a esperar pelo momento ideal. Deve obrigar apenas a perceber o que se está a trocar e porquê.

Quando essa decisão é tomada de forma consciente, informada e assumida, treinar com chuva, em piso difícil ou fora daquilo que seria o cenário “recomendado” deixa de ser um potencial erro e passa a ser uma escolha informada.

E isso é ok. Porque, no fim do dia, a formação nunca deve servir para um formador decidir unilateralmente o que quer que seja pelo aluno. Deve servir – tal como este artigo – para dar contexto suficiente para que a responsabilidade da decisão seja informada.

Por isso, se estás ou queres começar, mantém tudo isto em mente.

Não precisas de esperar por sol radioso ou temperaturas ideais. Precisas, sim, de terreno seco ou, no mínimo, estável, pois no fim do dia é isso que te vai permitir uma aprendizagem mais limpa, menos sofrida e, acima de tudo, mais honesta, principalmente numa fase inicial.

É essa honestidade para com o terreno que te vai permitir perceber se o investimento físico, financeiro e emocional que o fora de estrada exige é algo que queres realmente que faça parte do teu futuro.

E essa decisão, ao contrário do tempo que gostamos de ver na previsão, deve ser tomada com a cabeça claramente fria.


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