Um Extra Grátis

Um Extra Grátis

Se há coisa que a malta do fora de estrada adora - e das motas no geral - é extras para a mota. Abrir uma caixa com peças novas dá-nos um quentinho na barriga difícil de descrever.

Com o tempo, porém, tendemos a aceitar uma contraintuitiva realidade: muitos extras são pouco mais do que brinquedos, alguns são desnecessários, e poucos são realmente úteis.

Isso tende a significar que quanto mais conhecimento ganhamos, menos extras tendemos a comprar. Porque percebemos que alguns dos melhores extras são gratuitos e não vêm numa caixa.

Sensibilidade

Há uma expressão que diz que para quem não sabe dançar até o chão é torto. Nas motas, não é muito diferente.

Não levem a mal, isto não é crítica, é apenas o retrato de um processo natural.

Quando conhecemos mal o desporto que fazemos – independentemente de há quanto tempo o fazemos – é normal acharmos que precisamos de mil soluções externas para o que, na realidade, tendem a ser problemas internos.

Vejo isso em mim no golfe. Estou a começar e encaixo-me perfeitamente nesse padrão: swing atabalhoado, impreciso, sem ritmo, ainda a testar tacos emprestados ou alugados… e, claro, com tabs a mais abertas sobre todo o tipo de equipamento e extras.

Isto porque enquanto não ganhar conhecimento, experiência, e isso se traduzir em sensibilidade suficiente para perceber o que realmente preciso, vou continuar a tropeçar na ideia de que o material me vai salvar, como se estivesse ali escondida uma solução milagrosa para o que é puramente técnico.

Nas motas, é igual.

Risers, protecções, escapes, mapas de potência, suspensões, gadgets… tudo pode resolver problemas reais, mas nenhum vai resolver todos os teus problemas, principalmente os de base.

Além disso, a sensibilidade que nos permite perceber isso tende a só aparecer depois de termos gasto demasiado dinheiro em coisas que pouco ajudaram. E pior, só aparece se tivermos a humildade de olhar para a compra e admitir que a limitação que se mantém pode ter sido nossa, e não do extra errado.

Quando estas duas linhas se cruzam, percebemos algo importante: muitas das dificuldades que atribuímos ao material eram, afinal, nossas. Um sinal de auto-análise tão necessário como água no deserto, tornando-se um passo fundamental na evolução de qualquer motociclista.

A sensibilidade torna-se então o filtro que separa o que queremos do que realmente precisamos.

E quando a sensibilidade aparece, abre a porta para outro extra ainda mais valioso: a adaptabilidade.

Adaptabilidade

Quando aprendemos a ouvir o nosso corpo, a nossa mota e o terreno onde rolamos, percebemos que existem poucas motas inerentemente más. O que existem, isso sim, são muitas motas simplesmente diferentes.

Feitios próprios, objectivos que podem não coincidir com os nossos, e características que podem não nos encher as medidas. Mas nada disso as torna más por definição, nem tão pouco menos boas no cômputo geral. E entendemos isso é ok, porque nos permite perceber que até certo ponto é da nossa responsabilidade ajustarmo-nos à mota e a tudo o resto que nos rodeia.

Por exemplo, ajustarmos a nossa condução a diferentes pneus, pressões, condições climatéricas, até mesmo superfícies. É também aprendermos a lidar com limitações pessoais antes de culpar a máquina ou a falta de extras que outrora vimos como fundamentais.

Isso é o que nos permite entender que um pneu cardado em estrada molhada, por exemplo, não é inerentemente mau. Simplesmente nunca terá é a performance de um pneu de estrada de inverno.

Com isso em mente, mau é não nos adaptarmos à realidade do mundo e tentarmos forçá-la a adaptar-se à nossa rigidez.

Assim, se assumirmos que a sensibilidade se torna um filtro, a adaptabilidade faz a segunda passagem, ao limpar barulho e desconstruir ideias mal amanhadas.

Por exemplo, a conversa de que a lama das poças é “traiçoeira”.

É mesmo traiçoeira, ou tem simplesmente menos tração do que o piso seco, como é óbvio? Porque se é óbvio em conversa, então o problema no terreno pode muito bem sermos nós a insistir em abordá-la com a mesma confiança e agressividade de piso seco, esperando que o material compense a nossa falta de adaptabilidade ao terreno.

A adaptabilidade – em conjunto com a sensibilidade – ajuda também a desmontar a ideia de que o material “nos falha sistematicamente”.

Suspensões são um excelente exemplo disso. Afinal, quantas vezes é que uma suspensão é apelidada de “fraca” quando simplesmente não está bem ajustada? Ou a estamos a conduzir cansados, distraídos, lesionados, sem técnica, ou simplesmente acima das nossas capacidades ou muito abaixo das delas?

A adaptabilidade é por isso um extra que ajusta dinâmicas, corrige erros, compensa limitações, lê antecipações e antecipa falhas. É um extra que resolve problemas da mota e do piloto. Tornando-se o upgrade que nenhum catálogo oferece, mas que todos devíamos ambicionar ter.

E se duvidam de mim, basta pensar numa das frases mais citadas no nosso meio: “não é o índio, é a seta”. Afinal, porque é que um bom índio dispara com qualquer seta? Porque acima de tudo, se consegue adaptar à seta que tem para atirar.

Assim, lembrem-se que sensibilidade e adaptabilidade mudam radicalmente a forma como vemos as motas ao mudar o que esperamos delas.

Tornam-nos mais eficientes, mais seguros e mais difíceis de enganar pelo marketing e pelas conversas de café.

Tornam-nos mais capazes do que qualquer peça que caiba dentro de uma caixa.

Por isso, nesta época natalícia de consumismo, vale a pena perguntar se aquilo que estamos a pensar encomendar são ajudas reais, ou apenas um gesto inocente que pode mascarar a falta de algo que precisamos apenas de treinar com intenção para obter.


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