A mente e o músculo

A mente e o músculo

Fora de estrada, mesmo em modo aventura, é um desporto.

É físico, é mental, e obriga-nos a adaptar a cada metro. Mesmo assim, depois de mais de uma década a ensinar, continuo a receber alunos que acham que fazer terra sem ser em modo competitivo é tão desportivo como jogar à malha ou à sueca no café da esquina.

Anos de marketing excepcional ajudaram à confusão. Nas últimas décadas, as marcas venderam a ideia de que as ajudas electrónicas resolvem tudo e mais alguma coisa. Os vídeos mostram profissionais a fazer parecer fácil o que, na realidade, exige técnica, esforço e anos de compromisso para aprender. E a estrada, onde podemos, mas ainda assim não devemos, ser passageiros e não pilotos, reforça a ilusão. O resultado é uma aceitação passiva do que é realmente andar na terra, mesmo em regime lúdico.

Mas o fora de estrada não é um passeio com pó, é aplicação prática de movimentos específicos. Não é fazer as palavras cruzadas no sofá, é tetris no último nível.

A MENTE

As melhores técnicas, em motas ou em qualquer outro desporto, vivem de pequenos ajustes que promovem grandes resultados. Se assim é, temos de assumir que tudo o que parece exagerado ou vistoso é quase sempre mais espectáculo do que eficácia. Podemos até, no limite, dizer que boa técnica não é “instagramável”, porque não tem sabor visual.

Vamos então analisar, mesmo que de forma simplista, provavelmente o erro mental mais comum: a forma como usamos o nosso olhar.

Assim que chegam à terra, a maioria dos pilotos procura os problemas para decidir o caminho a seguir: buracos, pedras, raízes, tudo onde não querem acertar. Parece lógico, e é claramente instintivo, mas é um desastre em execução. Isto porque o cérebro tem limites, e quando gastamos toda a sua energia a procurar perigos, não sobra nada para lhes reagir.

É por isso que muitos até vêem o obstáculo, preparam-se, mas mesmo assim batem-lhe descontroladamente, num claro “em caso de dúvida acelera”. A mente estava demasiado ocupada a processar um qualquer perigo, e o corpo ficou sem ordens concretas de como o evitar ou superar.

Entrou-se em modo de sobrevivência.

Para entender essa sobrecarga, basta compreender um simples conceito: o cérebro não entende o que são quilómetros por hora. Ele entende distância e tempo. Por isso podemos dizer que 36 km/h, algo que todos aceitamos como sendo relativamente lento, significa percorrermos 10 metros por segundo.

Agora imaginem o que é tentar ler todos os perigos desses 10 metros de track, escolher o menos mau, decidir como o passar e aplicar a decisão, tudo em menos de um segundo, só para repetir o mesmo processo em todos os segundos seguintes até pararmos.

Temos de aceitar que essa realidade é incomportável e, como tal, a receita para o fracasso.

Pior ainda, é acreditar no “mas eu consigo fazer isso”. Senhores, isto não é uma questão de fé, mas sim de biologia.

Isto porque em média, os nossos olhos só conseguem mover-se e fixar-se em algo algumas vezes por segundo.

Cada movimento ocular, designado por uma sacada, dura cerca de 0,2 segundos, e entre cada sacada há pequenas pausas de valor temporal semelhante. Assim, no total, vemos nitidamente no máximo três pontos distintos por segundo. E desses, só uma pequena parte do panorama geral é realmente nítida, já que o centro da nossa visão cobre uns dois a cinco graus, e o resto é trabalho da visão periférica, que só oferece compreensão de movimento e contexto.

Então, o resultado da nossa limitação biológica real é simples: quanto mais tentamos ver tudo, menos vemos o que interessa, e a fadiga mental instala-se depressa.

Basta olhar para o xadrez: uma partida de cinco horas, com os atletas sentados, deixa um jogador exausto, havendo grandes mestres que chegam a ter de comer durante o jogo para não colapsarem fisicamente. Agora imaginem o impacto desse tipo de desgaste mental, mas em cima de uma mota, segundo a segundo, com o corpo todo a trabalhar activamente.

Dito isto, há uma simples e elegante alternativa.

Esqueçam os problemas e comecem a procurar no track os sítios por onde sabem passar, e não os que vos podem fazer cair. Por outras palavras, procurem soluções, não problemas.

Se sabemos que o corpo segue o olhar, então vamos usar isso a nosso favor e tornar a nossa vida em cima da mota mais leve, mais fluida, mais controlada e menos desgastante. E se nesse scan por soluções os nossos olhos não encontrarem um único ponto onde podemos passar, então o cérebro deve estar preparado para perceber o sinal: é hora de parar e pensar numa nova abordagem, com tempo.

Um pequeno ajuste mental que ninguém vê, mas que muda drasticamente a vida de quem o aplica.

O CORPO

Agora, se sabemos que a cabeça decide e o corpo executa, o problema é que, muitas vezes, o corpo não faz o que a cabeça tem a certeza que ele acabou de fazer.

Vejo isto todos os dias nos treinos que dou. Um exercício é explicado, demonstrado, ajustado na mota. O aluno acena, diz que percebeu, arranca… e faz tudo ao lado. Não é teimosia ou falta de jeito. É o cérebro a enviar ordens genéricas sobre um movimento específico, e o corpo a improvisar a sua própria versão por falta de dados sensoriais.

É o mesmo princípio em qualquer outro desporto ou actividade que se esteja a aprender: o nosso cérebro é brilhante, mas tende a ser bruto e reaccionista.

Queres levantar um peso do chão? O cérebro manda o corpo fazer, mas, a não ser que sejas um halterofilista treinado, o cérebro não quer saber se levantaste o peso com técnica ou com força bruta, se a lombar ficou protegida ou se as pernas estiveram minimamente presentes na equação. O peso foi levantado, é sinal de sucesso.

Na mota, essa abordagem dita a diferença entre sobreviver a um movimento e realmente executá-lo com precisão.

Basta analisar um exemplo simples: uma curva apertada a baixa velocidade. O corpo deve sair da mota do lado oposto à queda do veículo, o joelho exterior aponta para a frente da mota, a anca e o esterno rodam para acompanhar o joelho, o rectângulo entre o tronco e o guiador deve manter-se preservado, e o olhar foca-se no centro da curva até fazer uma sacada para preparar a saída. É basicamente isto que se pede e que os alunos compreendem.

O que tipicamente acontece nas primeiras tentativas? Tronco rígido e perpendicular à mota, olhar lento e fixo no sítio errado, e zero rotação do corpo, mas com uma imensa crença de que tudo foi feito pelo menos 90% certo.

A diferença entre o que o cérebro acha que o corpo fez e o que realmente aconteceu é enorme e imperceptível. E é aqui que entra a ferramenta mais subestimada de qualquer treino: filmar.

Ver de fora o que estamos a fazer muda tudo. Uma gravação de 10 segundos diz mais do que dez tentativas sentidas de forma errada. O vídeo corta o ruído e mostra a verdade sem espaço para grande discussão. Pequenos desvios que o corpo “acha” irrelevantes aparecem evidentes. E quanto mais cedo se vêem, mais cedo se corrigem efectivamente.

Filmar também reforça a ligação mente-músculo. Afinal, quantas pessoas no ginásio se vê a filmar os seus sets? Com esta ferramenta deixas o cérebro dar a ordem, vês o resultado, ajustas. O ciclo fecha-se. O corpo aprende o que a mente quis e, de tentativa em tentativa, os dois alinham-se.

Treinar sem ver, com ou sem ajuda externa de um instrutor, é como tentar atirar a um alvo de olhos fechados. Podes acertar por sorte, mas não por precisão, e certamente sem grande capacidade de repetição contínua.

Mais um pequeno gesto, mais uma grande diferença.

Por isso, sim, reforço a ideia: o fora de estrada é um desporto, e quando o começares a tratar como tal, tudo vai mudar na tua condução.

Porque só quando a mente e os músculos falam a mesma língua é que o verdadeiro controlo começa.


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