O que esperar de um treino off-road

O que esperar de um treino off-road

Decidir que se quer aprender técnicas de fora de estrada e marcar um treino pode ser um processo complicado.

Se para uns a parte monetária é o problema, para outros, ideias pré concebidas do que se passa nos campos de treinos é o que torna a experiência proibitiva.
 
Hoje vou-os explicar exatamente o que devem esperar de um treino off-road estruturado, uma explicação que espero que vos ajude a deixar dúvidas de lado, e a darem este tão importante passo na vossa evolução motociclistica.

O PRIMEIRO CONTACTO

Por definição, treinos fora de estrada são aulas, não são dicas - pagas ou não - dadas sobre a bandeira de formação.

No entanto, fora de estrada têm um risco agregado que é impossível de negar, logo, por muito que seja uma aula, em nada se assemelha à nossa experiência escolar, ou mesmo da de quando tirámos a carta.



Equipamento de proteção, ruido de motores, pó, e exercícios fisicamente desafiantes fazem de qualquer treino fora de estrada uma experiência educativa única. Imagem rideapart.com

 

Sabendo isso de antemão, muitas dúvidas aparecem na mente dos interessados em fazer este tipo de treino, e todas elas extremamente válidas:
 
“Vou ser posto em situações de risco que tenho obrigatoriamente de executar?”
 
“Será que me vou aleijar, ou danificar a mota?”
 
“Devo fazer uma aula individual ou de grupo? É que não quero estar a atrasar ninguém...”
 
Conforme discutimos quando falamos sobre como escolher uma escola de fora de estrada, estas e outras perguntas devem ser feitas diretamente ao instrutor, afinal, a sua resposta vai ser o primeiro indicador de se estás a falar com a pessoa certa ou não.
 
Ainda assim, não há nada como ter uma noção do que esperar, e munido dessa informação, mais facilmente encontrares a confiança necessária para marcares o teu primeiro treino.

UMA AULA NÃO É UMA DEMONSTRAÇÃO DE TÉCNICAS

Todos os treinos de todas as disciplinas de fora de estrada devem ser compostos por duas partes distintas, uma teórica, e uma prática.
 
A parte teórica torna-se vital pois uma simples explicação de que se deve por o corpo nesta ou naquela posição, não justifica o porque dessa necessidade.
 
Assim, com recurso a física, biomecânica, e por vezes até matemática básica, é fácil para os instrutores mais versado explicar o porque dos ensinamentos que te estão a passar.



Recurso a salas de aula, quadros, blocos, ou mesmo no chão, qualquer opção é válida para explicar a teoria de técnicas de estrada, ou fora de estrada. Imagem ACM


Entendendo o porque das coisas, vais tendencialmente ter mais facilmente em saber que técnica usar em cada situação, tal como fazer a escolha consciente do que perdes se decidires não a utilizar.
 
No entanto, antes de puderes saltar para a mota e testar tudo o que aprendeste, é tradicional o instrutor demonstrar não só as linhas do exercício, mas igualmente o método de aplicação.
 
Nesta fase, é então normal encontrar três tipos de instrutor; o que demonstra tudo de forma eximia, o que é pouco gracioso, e o “exibicionista”.
 
Se os dois primeiros se encaixam perfeitamente em moldes formativos, o último pode facilmente remeter para uma atividade totalmente diferente.
 
Digo atividade diferente porque não é incomum encontrar relatos, vídeos, ou mesmo presenciar um treino em que uma considerável parte do tempo foi passada a ver o instrutor a andar.
 
Seja por necessidade de serem idolatrados, ou por terem um currículo tão invejável que força qualquer aluno a querer ver ao vivo do que o instrutor é capaz, excessos podem então ser cometidos na altura da demonstração.



Em treinos com instrutores e pilotos de topo, por vezes é difícil não nos perdermos simplesmente a ver o que estes génios conseguem fazer. Imagem
bikeonline.com.au


Esses excessos, sejam eles por demasiadas repetições do exercício, ou por evolução da manobra a demonstrar para outras manobras diferentes, significam tempo de formação perdido.
 
Não me entendam mal, existem definitivamente alturas e formações especificas em que esses excessos são um excelente método de camaradagem e de relaxe, afinal um treino deve ser leve e animado.
 
No entanto, e por formação ser um investimento, tentares compreender de antemão como o teu instrutor organiza as demonstrações, vai-te ajudar em muito a decidires se queres pagar por algo com mais espetáculo, ou com mais tempo de treino.

O BRIEFING

Informação é poder, e com isso em mente, todo e qualquer dia de treino deve começar com um briefing informativo.
 
Afinal de contas, o desconhecido é para muitos assustador, e esse não é de todo o sentimento com que se deve abordar formação.

Assim, o dia deve começar não só com a apresentação do instrutor, desde a sua experiência e certificações, até ao seu conhecimento de primeiros socorros.



Formação continua em primeiros socorros em ambiente de formação para os seus formadores é o ponto chave do plano de emergência de qualquer escola. Foto Strefa Enduro


Qualquer informação pessoal adicional é pouco relevante para o treino em si, mas tende a oferecer uma conexão pessoal, e isso nunca deve ser desvalorizado.
 
Estando apresentada a equipa de formação, torna-se agora importante apresentar o local.

Desde os limites do campo de treinos, até onde podemos ou não passar, tal como a localização de todas as infraestruturas como lavabos ou zonas de descanso, nada deve ser esquecido.
 
Existem escolas com centenas de hectares, e outras que trabalham em campo aberto, por isso, sabermos exatamente com o que contar e onde nos podemos movimentar, dá uma sensação de familiaridade que é crucial para nos mantermos focados e descontraídos.
 
Para finalizar, é sempre importante não só delinear como o dia irá decorrer em termos de matéria e organização temporal, mas também claramente informar quais os protocolos de emergência.
 
Por norma, escolas tendem a ter salas de primeiros socorros dedicadas ou malas de emergência médica nas motas, mas independentemente dessa escolha, raras são que não têm pelo menos um elemento da equipa certificado em primeiros socorros.


Poder testar conhecimentos e técnicas com simulacros em campo, é como os melhores instrutores mantêm a sua capacidade de resposta a emergências. Imagem Strefa Enduro


Isto assim o é porque fora de estrada têm os seus perigos, e isso implica riscos não só para o grupo de formandos como um todo, mas também para o instrutor.
 
Assim, mesmo como alunos, podemos ter de ser chamados a agir, nem que essa ação seja somente dar a localização exata de onde estás ao 112, tarefa por vezes complicada no mundo do fora de estrada.
 
Dessa forma, mesmo que tudo o que falamos seja esquecido, garante que no mínimo te é dito como descrever o local do treino, onde tens rede se for caso disso, e onde estão os kits de primeiros socorros da escola, a vida de alguém pode depender disso.

O TREINO EM SI

Se numa década nunca tive de tratar de mais do que um arranhão, o mesmo não se pode dizer da quantidade de motas que já tive de levantar do chão.
 
Cair faz parte do desporto, e quanto mais depressa assumirmos que a nossa mota nada mais é do que a ferramenta que nos permite fazer fora de estrada, mais depressa aprendemos a lidar com o medo de uma queda.
 
Mas não se enganem, ainda assim, eu conheço e partilho a dor de ver a nossa menina de rodas para o ar, ou com qualquer coisa partida, mesmo que compreenda a sua inevitabilidade. 

 


Quedas fora de estrada são uma parte normal do desporto, e aceita-lo, permite-nos tirar mais da experiência. Imagem crf250l.org


Devido a essa inevitabilidade, quando começamos a ver esses danos como cicatrizes de guerra com historias para contar, rapidamente temos outra perspectiva e começamos a dar mais de nós ao treino que estamos a fazer.
 
Com isso em mente, quase todos os treinos a quase todos os níveis começam a ensinar, ou relembrar os básicos.
 
Entrar e sair da mota, movimenta-la à mão, e se for caso disso, ajusta-la á ergonomia de cada aluno é um recurso que ajuda em muito a eliminar a ideia de que a mota não quer fazer outra coisa senão cair.
 
Afinal de contas, a larga maioria das quedas acontece a baixa velocidade, pelo que exercícios estáticos e dinâmicos sem motor são um excelente aquecimento, e método de encontrar o foco e confiança necessários para o treino.
 
Ainda assim, e dependendo do tipo de treino, um aquecimento com corrida, alongamentos, ou mesmo ativação da coordenação motora pode ser essencial.
 
Dai, a maioria dos cursos estruturados tendem a seguir para exercícios dinâmicos a baixa velocidade, sejam eles de curvas, subidas e descidas, ou até mesmo com um simples passeio á volta da escola, se a mesma o permitir.
 
Baixa velocidade é no entanto a palavra de ordem, já que velocidade não se ensina, ganha-se por repetição lenta de exercícios específicos, mesmo quando se utiliza treinos cronometrados ou outros métodos para puxar limites.


Independentemente do nível ou disciplina do fora de estrada que for, treinos de exercícios repetitivos são sempre uma excelente forma de desenvolver os recursos que vão permitir impor velocidade mais à frente. Imagem MXFactory


Assim, e à exceção de manobras só possíveis com velocidades mais elevadas, a tendência geral vai ser sempre de trabalhar lenta e sistematicamente cada técnica e progressão.
 
No final do dia, podes igualmente contar com um de-briefing em que te deve ser dado não só um resumo dos teus pontos fortes, mas igualmente dos pontos fracos, tal como técnicas para os tentares atacar por tua conta.

SE NÃO CONFIARES, NÃO FAZES

Cada um de nós é único, com medos e receios particulares, e neste desporto individual normalmente feito em grupo, isso têm de ser tido em conta.
 
É irrelevante se um exercício é simples para mim como instrutor, ou para qualquer outra pessoa no teu grupo de treino, se és tu que tens de enfrentar sozinho a dificuldade que tens pela frente, então tens todo o direito do mundo de ter medo dela.

Assim, o trabalho do instrutor deve ser sempre aceitar esse receio, e tentar ajudar-te a vence-lo, mesmo que isso signifique puxar-te para o lado para te dar uma atenção espacial, permitindo ao resto do grupo prosseguir o treino.
 
Dessa forma, podes e deves esperar que todo e qualquer exercício que te seja proposto seja exatamente isso, uma proposta, e não uma obrigação.

Um treino fora de estrada não é uma aula normal, os seus objetivos são definidos por ti, estando lá o instrutor somente para te ajudar a atingi-los, e não para te forçar a aprender o que ele quer ensinar.



A atenção, empatia, e dedicação do instrutor é sempre fulcral para ajudar formandos de qualquer idade a atingir os seus objetivos. Imagem learntoridemoto.com


Com isso em mente, cabe-te a ti definir o que queres aprender, e aceitar a responsabilidade das tuas decisões, mantendo em mente que nunca ninguém poderá conduzir por ti.
 
Essa é a principal razão pela qual todo e qualquer treino deve ser claro, calmo, evolutivo, preparado, e liderado por alguém com uma grande capacidade pedagógica e comunicativa.
 
Se tu confiares na escola, no teu instrutor, e no que estás ali para aprender, te tiverem sido eliminados os barulhos de fundo que distraem e tendem a resultar em medos por vezes difíceis de gerir, a grande probabilidade é de que irás ter uma excelente experiencia educativa.
 
No fim do dia, um treino fora de estrada deve ser nada mais do que uma experiencia relaxada, didática, respeitadora, e que te vai oferecer a possibilidade de num ambiente controlado e dedicado, atingires os teus objetivos.
 
Por isso, agora que sabes o que esperar, só te resta escolheres a tua escola, e dares o passo em frente neste tipo de formação que vai para sempre modificar a tua forma de andar de mota.

 

Your riding buddy is trying to kill you!

 


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