Neck brace, protecção física ou psicológica?

Neck brace, protecção física ou psicológica?

Normalmente os meus artigos são baseados em factos, ciência, estudos, e todo e qualquer dado que eu possa utilizar de forma a suportar uma explicação.

Hoje não será assim, pois o problema com este tópico é exactamente uma grande falta de dados.

Mas antes de me adiantar, o que quero chamar a atenção é que este artigo não deverá ser visto como tal, mas sim como uma peça de opinião, a minha modesta opinião sobre neck braces.

 

OPINIÕES NÃO SÃO FACTOS 

Como instrutor e como pessoa não sou fã de falar do que não sei.

É relativamente fácil numa conversa comigo, seja a nível pessoal ou profissional ouvir-me dizer que “não tenho dados suficientes para falar sobre isso”, algo que me parece mais justo do que tentar fazer uma teoria na altura para parecer culto sobre este ou aquele tópico.

Ainda assim, teorias são uma parte fundamental de qualquer processo científico.

É com base em teorias que se procuram respostas e que se chegam a conclusões.

Conclusões essas que para serem validadas têm, ou no mínimo devem ser revistas e aprovadas pela comunidade científica.

 

Imagem de scienceimproved.comImagem de scienceimproved.com

 

Por isso, apesar de não ter dados suficientes para ser factual sobre o tópico de hoje, tenho os suficientes para criar uma teoria, e é isso que quero partilhar com vocês.

Uma teoria que espero que vos motive a procurar mais respostas por vocês próprios, de forma a poderem ter também vocês uma opinião mais formada neste ponto de discórdia entre muitos amantes das duas rodas, usar ou não neck brace.

E digo terem uma opinião formada, pois como instrutor, e principalmente sem todos os factos, nunca direi seja a quem for para não usar isto ou aquilo em relação a qualquer coisa que tenha a ver com segurança, e mesmo que o dissesse, valeria de pouco.

Em cima da mota quem está és tu, não é mais ninguém, pelo que toda e qualquer decisão tomada é tua e só tua.

 

Imagem BN EnduroCampImagem BN EnduroCamp

 

Isso significa que o resto é barulho ou neste caso teorias, e que tu és o primeiro e o último responsável pelo que fazes, e obviamente, pela tua segurança sempre que passas a perna por cima de uma mota.
 

FALTA DE ESTUDOS

Por mais que procure e peça a quem discorda de mim para me mostrar, não tive até hoje acesso a estudos sólidos sobre neck braces.

Digo estudos sólidos não por não existirem estudos, que os há, mas por trazerem pouca claridade de respostas para a mesa.

Se alguns deles vêm directamente de fabricantes de neck braces, o que no mínimo remete para algum tipo de conflito de interesses, outros são meramente laboratoriais, ou não exaustivamente focados em correlações de hipóteses práticas.

 

Imagem de pictures.topspeed.comImagem de pictures.topspeed.com

 

Ficam em falta estudos com números elevados de participantes, utilizando vários tipos diferentes de neck braces, e com a correlação entre os danos corporais sofridos e o nível de protecção dos diferentes braces.

Dados que para mim seriam cruciais para entender se usar braces protege mais ou menos, e entre eles, que tipo de brace escolher.

Ainda assim, aconselho uma leitura pelos seguintes estudos:

 https://ibrc.osu.edu/wp-content/uploads/2015/05/Abstract_2016_Sathyanarayan.pdf

• https://www.researchgate.net/publication/304101101_Finite_Element_Simulation_of_Neck_Brace_Protective_Equipment_for_Motorcycle_Riders

 https://leatt-cms-image.s3.amazonaws.com/2.3.4+White+Paper.pdf

 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4617221/

Quando comparados com outros estudos científicos, estes pecam pela simplicidade de análise de dados, faltar de revisão por parte da comunidade científica, e para mim, dados importantes, mas são os que encontro, e portanto, os que partilho.

 

TAPAR A CABEÇA PARA DESTAPAR OS PÉS

Sempre gostei muito desta expressão; tapar a cabeça para destapar os pés.

Não implica que a opção de tapar uma parte do corpo ou outra é inerentemente errada, mas aponta claramente para uma escolha, e que essa escolha têm consequências.

O meu grande problema com neck braces é o serem vendidos como um equipamento de segurança quase livre de consequências, o que arriscaria dizer, claramente não é, nem em termos de protecção, nem de condução.

Temos portanto de começar por entender o que estamos a tentar proteger.

Neck braces não são como as protecções dos nossos casacos, calças, armaduras ou capacetes, que têm por base directivas europeias ou internacionais que definem claramente os níveis de energia que têm de ser absorvidos ao impacto.

Essas definições, reconhecidas como nível 1 e nível 2, ditam valores entre os 9kN e os 24kN, algo que tanto quanto eu tenho conhecimento, não têm aplicação em neck braces.

Isto é porque neck-braces não são desenhados para absorver energia, mas sim para impedir certas posições da cabeça.

Isto significa que qualquer energia de um impacto vai ser transmitida para onde o brace assenta no corpo, o que dependendo do modelo pode ser as clavículas, esterno, omoplatas, e até mesmo a própria coluna.

 

Imagem de top10focus.com que demonstra um brace a assentar na coluna atrás, e no esterno e costelas na frente.Imagem de top10focus.com que demonstra um brace a assentar na coluna atrás, e no esterno e costelas na frente.

 

 

Isso significa que existe aqui uma escolha, proteger um lado, ou proteger o outro, porque como a energia tem de ir para algum lado, algo no corpo se vai partir, magoar, ou de alguma forma danificar.

Considerando que nunca ninguém, incluindo fabricantes, diz que neck braces eliminam a 100% lesões, este ponto é relativamente claro, mas ainda assim importante de relembrar.

Agora como não há estudos inequívocos, é difícil saber exactamente qual o risco de partir as “opções” versos partir a zona que está a ser protegida pelo brace, mesmo dentro da própria coluna.

Usando como exemplo a imagem acima, para proteger a cervical, ou seja, entre a C1 e C7, temos uma protuberância do brace que assenta sensivelmente na zona da T6 e T7.

Isto diz-nos que numa queda em que a cabeça seja projectada para trás, a energia do impacto será projectada na zona da coluna onde a parte final do brace assenta, designada como zona torácica da coluna vertebral.

 

Imagem de massagesupplies.comImagem de massagesupplies.com

 

Danos na zona torácica da coluna podem limitar a mobilidade do corpo, e são danos que sem estudos claros e focados, é impossível saber qual a probabilidade de existirem ao cair com um brace semelhante ao da imagem mostrada. 

Outro teste que gostaria de ver feito e que nenhum estudo parece destacar, é a flexibilidade natural da cabeça.

Algo “braced”, ou “engessado” para todos os efeitos, é algo que não têm mobilidade, ou a têm altamente reduzida.

Isto significa que em caso de queda se torna impossível fechar o corpo e enrolar, uma técnica de queda aplicada em muitos desportos, incluindo nas duas-rodas.

Ao utilizar o neck brace estamos a fazer com que a nossa cabeça esteja permanentemente em posição de aríete, ainda que com uns mais do que com outros, tornando esta manobra impossível de ser efetuada.

 

Imagem de rideonmagazine.com.auImagem de rideonmagazine.com.au

 

Isso traz para a mesa outra pergunta; qual a percentagem de danos causados pela utilização do neck brace versos os danos sem o mesmo, mas utilizando técnicas de proteção para o mesmo tipo de impactos.

Bem sei que quedas acontecem a uma velocidade imensa, e que nem sempre será possível aplicar técnicas defensivas, mas, por exemplo em MotoGP, é comum ver pilotos a aplica-las.

Os novos airbags também utilizados em MotoGP, quando insuflados tendem a levar a cabeça e tronco do piloto para uma posição mais fechada, algo fetal, dando credibilidade à teoria de que enrolar o corpo promove proteção em queda.

Sem dúvida que todas estas perguntas e muitas mais não são de resposta fácil, nem de simulação simples em laboratório, ou de aferição direta em acidentes reais, mas para mim, como potencial utilizador, são as que seriam necessárias.

 

CONDUZIR DE OLHOS FECHADOS É PERIGOSO

Com ou sem neck-brace, muitos pilotos, de profissionais até guerreiros de fim de semana têm uma posição corporal em cima da mota de uma forma ou de outra incorreta.

Se uns é por desconhecimento, outros é por escolha própria ou falta de preparação física para a manter durante longas tiradas.

Até aqui, apesar de pessoalmente gostar de ver essa realidade alterada, não há nada de surpreendente ou necessariamente de novo. 

O que é assustador é que principalmente em posições de ataque agressivas com o neck brace metido, é totalmente impossível levantar a cabeça o suficiente para ver o caminho sem ficar numa péssima posição corporal.

Isto acontece porque o brace pára o movimento da cabeça para trás, limitando a visão a pouco mais do que uns metros acima e em frente do guarda lamas.

Essa situação força o corpo a chegar-se para a frente, deixando-o mais vertical de forma a se recuperar a visão do que está à nossa frente.

Isso leva muitos a erradamente acreditar que essa posição é de facto a correta.

Na realidade a posição com o brace torna-se incorreta por várias razões além da explicada, mas fazendo um lado a lado fica facilmente demonstrada a diferença entre uma má e uma boa posição de ataque.

 

Imagem BN EnduroCamp com base numa aula do Ryan HughesImagem BN EnduroCamp com base numa aula do Ryan Hughes

 

Isso significa que ao usares o neck brace em pé vais obrigatoriamente estar numa má posição, o que aumenta à cabeça o risco de queda.

Havendo uma queda, podes ou não estar efetivamente mais protegido quando isso acontecer.

Por outro lado, podemos diminuir o risco de queda por não usar o brace e efetivamente ver para onde se está a ir, tal como o fazer de uma posição de condução muito mais eficaz.

Isso por outro lado potencialmente aumenta o risco de lesão numa potencial queda. 

Outro problema técnico com implicações no risco de queda, é a lateralização do corpo, conforme demonstrado na figura seguinte.

 

Imagem de webbikeworld.com onde é descrito que a cabeça está a ser movimentada somente dentro de ângulos de conforto.Imagem de webbikeworld.com onde é descrito que a cabeça está a ser movimentada somente dentro de ângulos de conforto.

 

Ao termos a cabeça “presa”, qualquer movimento da mesma de uma forma lateral, mesmo nos braces mais permissivos, vai forçar o capacete contra o brace, que o força contra o ombro, o que o força para baixo, o que força o cotovelo e o tronco a descaírem para esse lado.

Esta lateralização normal da cabeça que com o brace força a lateralização do corpo como um todo, aumentando o risco de queda em curva.

Aliás, um dos grandes culpados de quedas em curva fora-de-estrada, e principalmente em pistas de MX e SX, é exatamente este fenómeno, com ou sem neck brace.

 

Imagem BN EnduroCampImagem BN EnduroCamp

 

Essa é a razão para qual aos mais altos níveis de MX e SX, principalmente nos EUA e Australia, e até mesmo em enduro e rally raid, eles tão a deixar de usar neck-braces, porque estão a preferir aumentar a sua segurança ativa ao conseguirem ter posições mais agressivas e consistentes, enquanto vêm o caminho, o que lhes dá mais controlo da mota e diminui o risco de queda.

Aceito perfeitamente que nem todos nós precisamos ou queremos andar sempre em posições tão agressivas como as utilizadas ao mais alto nível do fora-de-estrada em duas rodas, pelo que o que disse antes pode ou não ter aplicação direta à tua realidade.

Ainda assim, é algo a ter em mente.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A situação mais paradoxal de trabalhar como instrutor de fora-de-estrada, é que raramente ando de mota.

O tempo para andar e treinar, é utilizado a gerir a empresa, a preparar cursos, criar exercícios, e a estudar para poder fazer cada vez melhor aquilo que é a minha profissão, ensinar.

Dito isto, escusado será dizer que quando finalmente meto a perna por cima de uma mota, as minhas posições não são as mais agressivas por falta de necessidade e preparação física, ainda assim, escolho poder fazê-lo, por isso não utilizo um neck brace.

No meu balanço de risco-recompensa, com base na minha leitura dos dados existentes, ou pelo menos, dos que tenho acesso, o resultado é claro.

Ainda assim, acredito que isso vá mudar brevemente.

Com o crescimento da tecnologia de air-bags para utilização corriqueira, um neck brace de air-bag dá resposta direta a muitas perguntas, tal como elimina os problemas técnicos acima referidos.

 

Imagem de bikebandit.comImagem de bikebandit.com

 

E digo utilização corriqueira porque apesar de já existirem opções de air-bags com neck brace incorporado, não suportam uma utilização de treinos ou passeio domingueiro, em que várias quedas por dia tendem a estar no menu.

Assim sendo, vejo um futuro muito promissor para esta ideia que sem dúvida nasceu da vontade de salvar vidas, e que brevemente será algo consensual para todos nós.

 

 

Your riding buddy is trying to kill you!


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